João Gomes, de arco e flecha, incrusta na poesia

* Roger Normando.

Para que morras com a flecha encravada no peito

e a minha carne sangre por ti,
atravessei a tempestade

Joãozinho Gomes, em : “A flecha passa e poemas diversos”

Se o poema credencia às artes, então sábado 6, quem esteve em Macapá, chão Waiãpi entre a fortaleza de São José e o Curiaú, celebrou a canonização de um poeta. Eis que se apresentou Joãozinho Gomes, tomando pelo ombro o poente nas cores do milagre de ser poeta de poesia.

Joãozinho foi de arco retesado e flecha alvissareira para lançar palavras ao infinito devasso da página em branco. O título, “A Flecha passa e poemas diversos”, nasce da necessidade de se ocupar os espaços vazios com os passos esparsos do tempo em que cavalgou no rastro de sua órbita de compositor (Diga lá Nilson Chaves, Zeca Baleiro, Patrícia Bastos, Zé Miguel e tantos). Se a flecha passa, é por que o alvo é o peito dos que sofrem a ardência de amar até exaurir a alma, ou de sangrar por todas as veias. Esta é a mensagem de Joãozinho que emudece alaúdes, violões e atabaques e dá vez à palavra-pólvora incrustada na voz. Sim, sim. Falo do estalo que cada verso provoca no pomo, cujos estilhaços empalidecem a pele dos que se abraçam aos versos pontiagudos deste épico, que lembra Ilíada: “fez-se a guerra, a rosa de Ares, a bomba, volátil como a pomba).

Se a música resplandeceu por primeiro, decerto a poesia estava incrustada entre um fá sustenido e a voz do cantor. Mas o que surge agora é alvo de Homero e João Cabral de Melo Neto, que o atingaram sem dó. Ou seja, João se desgruda das aldeias musicais e foge carregando Aquiles e Severina ao tiracolo, transformando-se em Poeta de épico.

A obra é dividida em duas. A primeira é intitulada “A flecha passa”, épico que se passa na Grécia de Aquiles e Agamenon com parêntese dado à fortaleza de São José (em: Cantos do Tempo); o segundo, “Poemas diversos”, é uma ejaculação de palavras num aguaceiro de aliterações, esquartejando o ritual versejador tradicional, deixando nítido o contorno de sua pérfida caneta. Chama-me atenção duas fortes dores: a sensorial e a visceral. A sensorial é como uma flor que “fede” ou a dor de se “ouvir” a morte. A segunda é a dor orgânica, neurogênica, como se uma costelas estivesse estalando e, no momento da fratura o poeta, ao ouvir o estalido – como o som de um galho seco quebrando – provoca verso: “manadas taurinas\ estourando sobre nós \ esmagando as harpas\ ao tórax disto que ao sol se chama corpo”. Aqui, João compara o arcabouço ósseo do tórax às harpas, posto que o encordoamento do instrumento lembra a disposição anatômica obliquada das costelas, agora fraturadas, levando à desarmonia de movimentos. Ao que nós médicos chamamos de insuficiência respiratória.

Assim, acidificando a dor, João é outro João – e está mais para Cabral de Melo Neto-, na dor doída que se assenta na poesia de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor\ Finge tão completamente\ Que chega a fingir que é dor\ A dor que deveras sente”.

 

Como não sei tocar, tampouco cantar, prefiro João se fingindo Pessoa.

Texto publicado originalmente no Jornal “Diario do Amapá, em 7 de dezembro de 2014”

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