GENERAL RONDON EM TERRAS DO AMAPÁ E A ESPADA PERDIDA

*Heraldo Costa. Juiz de Direito

Que Cândido Mariano da Silva Rondon, mais conhecido como Marechal Rondon, militar e sertanista brasileiro, andou muito por esse Brasil todos nós sabemos. Basta conhecer um pouco de sua história para ter a certeza de que esse notável brasileiro foi o maior conhecedor das terras do Brasil, tendo auxiliado Presidentes, Ministros de Guerra, tanto na demarcação do território brasileiro como na delimitação de terras indígenas.

Nasceu em 1865 e até sua morte em 1958, com 92 anos de idade, sempre foi reverenciado como o grande desbravador dos sertões do Brasil, a ponto de ganhar um meridiano com seu nome e centenas de ruas Brasil afora que se denominam General Rondon, Marechal Rondon, etc.

Em seu grandioso trabalho de demarcação de fronteiras, no extremo norte do país, esteve em Roraima e lá deixou sua espada como prova de amizade aos índios da etnia Macuxi. A guardiã da relíquia de Rondon é, até hoje, a índia Macuxi Avelina Pereira, de 90 anos.

No entanto, o que pouca gente sabe é que Marechal Rondon esteve em terras do Amapá, quando ainda pertenciam ao Pará, e pode ter deixado aqui também, uma espada como prova de amizade para com os povos da Guiana Francesa, dentre eles os “Sarmakás”, comumente chamados de Negros Samaracás.

Rebuscando a história do Brasil, chega-se ao ano de 1927, sendo então presidente da república Washington Luiz. O Presidente, preocupado com o povoamento e segurança das fronteiras, nomeia o General Rondon como Inspetor de Fronteira. A expedição tinha por tarefa atingir a linha de fronteiras do Brasil com a Guiana Francesa, Guiana Holandesa, Guiana Inglesa, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai, sendo amplamente registrados por meio das fotografias, cartas topográficas, documentos escritos e filmes. Tais fotografias estão até hoje arquivadas no Museu Histórico Nacional, provenientes do antigo Ministério da Guerra.

Esta expedição, que durou de 1927-1930 e se tornou uma das mais importantes no contexto histórico-político da primeira República no Brasil, que ainda naquele momento necessitava delimitar as fronteiras e construir a nacionalidade brasileira. Nesse contexto o General Cândido Mariano da Silva Rondon ajudará a desenvolver uma missão civilizadora no sertão Norte do Brasil, promovendo a integração do interior ao litoral, seja por meio da construção de linhas telegráficas, símbolo do progresso e de modernidade, seja pelas demarcações das fronteiras,eis que o Brasil vinha de longa data tentando estabelecer o domínio sobre seu território.

Naquele momento, a questão franco-brasileira relativa à fronteira do Amapá com a Guiana Francesa já se resolvera há mais de duas décadas, no entanto as precisas demarcações nunca haviam sido feitas, eis a razão da vinda do General Rondon às Guianas.

Até a resolução do conflito pelo Barão do Rio Branco, o destacamento militar mais avançado era a Colônia Dom Pedro II junto ao Rio Araguari, criada em 1840. Em 1907 esse destacamento foi transferido para o rio Oiapoque com o nome de Colônia Militar do Oiapoque, em Ponta dos Índios e, posteriormente, para a Vila Santo Antônio, em frente à Vila francesa de Santo Jorge. Pelo litoral, Oiapoque está localizado na parte mais setentrional do território brasileiro, no Estado do Amapá, fazendo fronteira com a Guiana Francesa ao longo do rio Oiapoque, que é um dos principais acidentes geográficos junto com as montanhas do Tumucumaque ao sul, depois de fazerem a divisa do Brasil com as Guianas penetram em território nacional.

A ineficiência da Colônia Militar do Oiapoque, que deixava a região despovoada e desguarnecida, fora um dos motivos para a fundação da Colônia Agrícola de Clevelândia, em 1922. Os primeiros colonos chegaram ainda na primeira metade do ano de 1921, distribuídos ao longo da margem brasileira do rio Oiapoque. Durante o ano de 1922 e 1924, esse local foi escolhido para receber militares prisioneiros políticos dos movimentos revolucionários. As levas de prisioneiros chegaram ao presídio político de Clevelândia a bordo do Cuiabá, e muitos outros após os combates de Catanduvas, na Revolução de 1924, que praticamente encerrou esse fluxo migratório compulsório para a região. O projeto da Colônia Agrícola acabou entrando em decadência, em virtude da epidemia de disenteria bacilar que vitimava muitos presos e colonos, e coincidiu com o fim da migração de presos políticos.

Quando Rondon chegou à Clevelândia do Norte, junto com a Comissão de Inspeção de Fronteiras, em 1927, o povoado estava bastante decadente e assim continuou por muitos anos pois nos três anos seguintes, com a revolução de 30, houve a anistia dos presos políticos ali mantidos compulsoriamente, que retornaram às suas terras, bem como a criação do Projeto de Henry Ford no Vale dos Tapajós. A influência do relatório de Rondon às maiores autoridades brasileiras, insistindo na necessidade de ocupação das fronteiras para garantir a soberania territorial no Norte do Brasil, foi o que não permitiu que se abandonasse o projeto de ocupação e desenvolvimento nessa área.

No período que esteve na região, Rondon conheceu os “Sarmakás” e os Oyampi (de onde provém o nome Oiapoque : oca dos Oyampi) e com eles manteve longos contatos, levando não só fotografias deles, mas também urnas funerárias para estudos no Rio de Janeiro. Da região das Guianas, Rondon ainda passou pelo Rio Parú, em Almeirim, Norte do Pará, bem próximo de Laranjal do Jari.

Desse contato, circula a história de que Rondon haveria deixado como prova de amizade uma espada de Oficial do Exército Brasileiro a um líder “Sarmakás”

O certo é que, quando Janary Gentil Nunes veio pela primeira vez ao Amapá em 1940, quando ainda era primeiro-tenente do Exército, para comandar o Pelotão Independente do Oiapoque em Clevelândia do Norte, se interessou pela história da espada de Rondon e fez diversas incursões para verificar a autenticidade da história. Segundo consta, pelas histórias contadas pelos mais antigos da vila de Clevelândia, essa espada, toda feita em aço e com capa do mesmo metal e que ostenta no cabo um enorme brasão da República, chegou a ficar na sala do Comando de Janary em exposição, e que a teria devolvido ao chefe “Sarmakás” quando retornou ao Rio de Janeiro, no final de 1941.

História ou lenda, vários interessados pela história do Amapá, já se aventuraram pelos rios e cidades da Guiana Francesa, especialmente Saint Georges de L’Oyapoque à procura dessa espada, que chancelaria a pouca divulgada estada de Rondon por este rincão amapaense.

Segundo esses amantes da História, as informações dão conta que a espada está em Saint Georges, com um descente negro, já localizado.

 

Fonte das fotos: Arquivo Histórico do Exército. Acervo do Ministério da Guerra, Relatório sobre o Anteprojeto para a defesa da Bacia Amazônica, de 1929.

Fonte das Informações: RODRIGUES, Fernando da Silva. Um olhar diferente sobre Rondon: imagens do processo civilizador do sertão centro-oeste e norte brasileiro na primeira república. Dissertação de Mestrado – Vassouras: USS, 2005.

 

FOTOS:

 

FOTO 1 – Integrante do grupo de negros ¨Sarmakás¨ , holandeses, ocupantes da região de ¨Tampanque¨, próximo de Saint Georges do Oiapoque, destacando-se marcas na região lombar.

Negro Sarmakás perto de são jorge

FOTO 2 – Perfil de um negro ocupante da região no alto do rio Oiapoque.

Negro Sarmakás perto de são jorge2(1)

FOTO 3 – INDIOS OYAMPI

Oyampi

FOTO 4 – ÍNDIOS OYAMPI

 

Oyampi2

FOTO 5 – Rondon com Índios do Rio Parú.

 

Indios do Parú

 

 

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