Flor da Samaúma – A história do vinho de açaí no Amapá

Por João Capiberibe – Macapá, 07.2022

Tudo começa no final de 2021, no segundo ano da pandemia. Faltando poucos dias para o Natal recebi quatro garrafas de vinho. Meu amigo Picanço, lá do Laranjal do Jari, com quem as vezes converso sobre vinho, havia me presenteado. Ele está mais próximo de ser um enófilo do que eu, eu apenas bebo vinho por prazer e “recomendação médica”.

O vinho de uva ou de açaí possuem substâncias benéficas à saúde, a antocianina e os taninos, antioxidantes que neutralizam os radicais livres do organismo humano e a eles se atribui poder de evitar entupimento das coronárias. Essas duas substâncias movimentam bilhões de dólares no mercado global.

Entre as quatro garrafas de vinho que Picanço me presenteou, havia uma de vinho de açaí. Causou-me surpresa aquela garrafa entre as outras de vinho de uva, mas surpresa redobrada eu tive ao abri-la, pois não é que seu conteúdo tinha cor de vinho, tinha cheiro de vinho, e ao provar, senti gosto de vinho, era vinho!!! Liguei para o meu amigo Picanço e até brinquei com ele dizendo que ele tinha mudado o rótulo pra dizer que aquilo era vinho de açaí, mas que na verdade se tratava de vinho de uva. Perguntei-lhe onde conseguira aquela preciosidade, disse-me que comprou pelo Instagram, de uma pessoa do Acre.

Fui imediatamente ao Instagram, mandei uma mensagem, em seguida liguei, fui atendido por Marcos Júnior com quem conversei sobre o Vinho Florisa, que ele produz lá no Acre. Depois de encomendar algumas garrafas, ficamos batendo papo. Contou-me que era cervejeiro artesanal já há algum tempo, e que durante a pandemia, em 2020, resolveu fermentar a polpa do açaí para ver o que acontecia, ficou pasmo quando viu o resultado: cor, cheiro e sabor, tudo muito parecido com o vinho de uva. A partir daí ele passou a fermentar e engarrafar o vinho de açaí.

Alguns dias depois chegaram as garrafas que Marcos Júnior me mandou, convidei os reitores das universidades aqui do Amapá, do Ifap e a direção da Embrapa para uma degustação de dois vinhos, o Florisa de açaí do Acre e o Portada de Portugal, foi surpreendente! Algumas dessas pessoas confundiram o vinho de açaí com vinho de uva, mas todo mundo aprovou o Florisa de açaí. Empolgados decidimos fabricar nosso próprio vinho.

Quando moramos no Chile, fomos viver numa vinícola da Universidade do Chile, em Puríssima, na província de Talca. Ali, além de fazer vinho, usávamos o bagaço da uva para fazer o que eles chamam de Chicha, uma bebida fermentada de baixo teor alcoólico que é muito simples de fazer: esmaga a uva com os pés descalços e deixa fermentar até chegar a um ponto que a fermentação é suspensa e já se pode beber.

Eu e Janete, minha companheira de vida e de luta, chegamos a conclusão que poderíamos fabricar nosso próprio vinho de açaí. Dito e feito, daí em diante passamos a produzir e chamar os amigos para degustar, e para nossa surpresa, a aprovação foi geral, tanto que não paramos mais. Hoje temos quinze lotes experimentais, com diferentes receitas, produzindo em pequenas quantidades, vinho seco, meio doce e suave.

O vinho de açaí, cujo teor alcóolico pode variar de 8 a 14 graus, terá certamente um papel decisivo no desenvolvimento sustentável do Amapá e da Amazônia. Ele tem cor, tem cheiro e sabor de vinho! É vinho! E veio pra ficar, é mais um subproduto dessa fruta santa que alimenta a paixão do povo do Amapá e da Amazônia. No entanto precisamos urgente que nossas universidades e institutos de pesquisas assumam a corrida em busca da informação e do conhecimento que nos permita colocar no mercado nacional e global, nosso vinho de açaí.
Estamos apenas começando!

  • O substantivo polpa, se refere a certos tecidos carnosos dos animais, ou dos vegetais, enquanto poupa tem dois sentidos: enquanto substantivo, é uma crista, um tufo de penas na cabeça de alguns pássaros, e como verbo se refere à terceira pessoa do presente do indicativo, ou segunda pessoa no imperativo do verbo poupar.
    É só uma observação. Alguém errou na digitação e os rótulos saíram truncados. Mas para não perde-los alguém corrigiu manualmente. Parabéns ao rotulador.
    Parabéns à iniciativa de produzir vinhos a partir do açaí! Uma excelente ideia!
    Aliás, no interior do Afuá onde nasci, se toma o “vinho de açaí”. Talvez pela associação à cor do vinho de uva.

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