Festival do Camarão… boa viagem!

Por Marileia Maciel
*Publicado em julho de 2013.
Destino: Afuá
Destino: Afuá
Mês de julho é também tempo de atravessar o rio Amazonas e dar uma chegada até o vizinho Pará, pra curtir o Festival do Camarão, em Afuá. Menos pra mim. As lembranças da festa não são as melhores, sempre fui a serviço que não dão bons resultados, e porque minha mania assombrosa de atrair “micos” me coloca em situações absurdas que acredito que tem coisas que só acontecem comigo. Não sou traumatizada porque transformo tudo em causos e depois rio de mim mesma. Da vez que fui sem compromisso profissional, o que aconteceu foi tão aberrante que só de falar em Batalha Camaroeira me dá alergia.
Rejeitei uma vaga no barco com amigos também porque é de conhecimento, que o número de pessoas sempre ultrapassa o de quartos, comida, camarão e até de vento, que fica vasqueiro por lá. Mas tenho certas atitudes que, sinceramente, fogem do meu controle. E lá fui eu pra Afuá porque fui no Santa Inês me despedir dos que iriam, e encontrei um rapaz conhecido que fez um convite e eu mudei de ideia. De repente achei que seria uma viagem interessante, e lá fui eu, atrás de passagem no barco que sairia em duas horas. Chamei o amigo gay, que tinha uma missão por lá, e corri pra arrumar a bagagem.
Começou na saída. Fui a primeira da fila pra pegar o melhor lugar, só que a chuva da baguda botou todo mundo correu e se proteger, mas eu, que estava na cabeceira da fila, fui a última a sair, imprensada entre bagagens, paneiros com comidas, animais e caixas de bebidas. Atrapalhada, tropecei em meu pé a caí rasgando a calça e meu joelho ficou em carne viva. Me arrastei com dor, sangrando e ainda por cima molhada, até longe, onde achei um ambulante com uma sobrinha. A chuva passou e a profecia se cumpriu, os últimos foram os primeiros a entrar no barco. Me agasalhei em um lugar que deve ser parecido com o porão do inferno, porque em cima, tinham umas diabas que amanheceram gritando mais que guariba na mata.
Sem dormir e com o joelho doído, amanheci na Veneza Marajoara, onde cada palmo de tábua é disputado a tapa. Não encontramos uma só escápula pra pendurar a rede, foi o jeito dormir no barco de meus amigos. Como toda desgraça pra mulher assanhada é pouco, aconteceu o inacreditável. O barulho das rodinhas da valise nas pontes e as aparelhagens em cada casa não me deixaram escutar os gritos de sai da frente, até que olhei pra trás e vi uma mulher imensa, sentada na frente de uma bicitáxi e o condutor tentando enxergar entre suas dobrinhas. Me acertou no traseiro e por alguns centímetros, e um pouco de equilíbrio, não fui parar  embaixo na ponte, na lama. Acho que sou a única pessoa a ser atropelada por uma bicitáxi.
Bicitaxi
Bicitaxi
Finalmente começamos a nos arrumar. Meu amigo havia levado uma muda de roupa pra cada show e vestiu a primeira, calça branca e camisa preta. Decidimos beber cachaça, porque também falta banheiro, e esqueci a dor no joelho. Danças, risos até que ele enxergou sua cara-metade com outro e o efeito da cachaça mudou de alegre para depressivo. Quando eu finalmente descobri entre os milhares de rostos o rapaz que me fez embarcar na aventura, só deu tempo de me afastar do meu amigo, que vomitou, manchando calça e me obrigando a arrastá-lo até o barco, onde o segurei de cabeça pra baixo até que esvaziasse por dentro.
Amanheci, mais uma vez, sem dormir e ainda procurei a razão de eu estar passando aquilo tudo. O encontrei escorado entre uma árvore e uma pilastra, sem condições de dizer bom dia e ainda o vi tentando me reconhecer entre tantos bêbados que tropeçavam uns nos outros. Voltamos arrasados, o amigo vomitando nas mudas de roupas que não chegou a usar. Então descobri que a praga que me jogaram não foi só pra Afuá. Estava sem chave e não tinha ninguém em casa. Ainda podíamos nessa época deixar a chave em lugares secretos e as grades podiam ser baixas. Firmei a perna do joelho machucado e, quando passei a outra pra dar o grande pulo, como estava acostumada a fazer, o joelho bom engatou na ponta da grade e foi outra sangria desatada.

Não encontrei a chave e ainda tive que pular de volta a grade. Sentada na calçada, aceitei o convite de um cunhado que apareceu e fui me acalmar no Abreu. Esqueci que tinha joelhos e emendamos pra uma tal festa onde sentei em uma mesa de onde só levantei na hora de voltar pra casa, mas nem consegui articular os joelhos. Saí carregada, sem ninguém  entender se eu estava porre ou aleijada. Afuá em tempos de Festival do Camarão? Vá em paz, irmão, cuidado com as bicitáxis desgovernadas carregando obesas, amigos com dor-de-cotovelo, diabas embriagadas, chuva inesperada, amantes perdidos e cunhados atentados na volta. É pra gosta mesmo de “barca”.

  • Para quem não a conhece pode até pensar que é as histórias da Mariléia são frutos de sua imaginação, mas não são. Minha irmã tem uma capacidade incrível de atrair situações hilárias, o mais interessante é que depois consegue transformar os fatos que para muitos seria traumatizante em maravilhosas narrativas. Só estou curiosa para saber quem é o tal rapaz que a fez embarcar nesta viagem.

  • Minhas irmãs são curiosas….jamais saberão que é o rapaz.O amigo vocês sabem, mas ele não, até porque esqueci, nunca deu certo!!Vale a história, personagens secretos.

  • Gostei Leia.
    Alias, creio que cada um que vai na Veneza Marajoara (referência a belíssima Veneza Italiana) tem uma história, istória, causo.
    Adoro o Afuá, o povo de lá, o camarão pitú, a mujica e a torta de camarão. Sempre vou, porém em períodos que não têm festejos, “barcas” !
    Boas festas e divirtam-se com responsabilidade.

  • Afuá é um município maravilhoso.Lindo, com pessoas hospitaleiras e gentis. Gosto de ir por lá e tenho grandes amigos afuaenses. Esse é somente uma texto pra contar um causo acontecido e vivido por mim. Obrigada a todos, domingo tem mais.

  • A minha Amiga Marileia Maciel é nota DEZ: Q bela história, e concordo em nº, gênero e gráu com ela. Festival do Camarão pra mim é igual a música da Roberta Miranda “Vá com Deus”, pois eu prefiro ficar com Ele por aqui mesmo.
    Abs. Matta.

  • Adorei e, confesso, ri um bocado. Achei o fato um pouco parecido com o que acontece comigo mas, ao contrário dos prejuízos, como os que vc teve: ferimentos, noites sem dormir, comigo, o que acontece, são enormes coincidências que, geralmente, acabam bem. Isso é vida! Só precisamos ser mais prudentes e seguir as normas de segurança que podem diminuir as consequências drásticas. Conheço o Afuá porém, nunca fui em época de festa. Gosto do repouso noturno. um abraço

  • Kkkkkkkkk. Tô com a barriga doendo de tanto rir Léia. Queria escrever mais, mas o acesso de risos me fez ir direto para o banheiro fazer xixi. Kkkkkkkkkkkkkk

  • Kkkkkkkkkkkkkk… O Afuá é mesmo prodigioso em produzir histórias desgraçadas, que bem contadas ficam engraçadas.

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