Eu e Ele

Por Ruben Bemerguy – Advogado e Poeta

Ele palmilhava meus pés com hálito de chuva. Todas as palavras estavam caladas. Zuniam sílabas imprecisas. Eu, freneticamente imóvel as tragava e as devolvia a panos que aconselhavam tórrida escravidão. É como se me adivinhasse logo dividida em hemisférios. Isso me fazia transpirar uma resina inflamável e incontida. Ele, inclemente, me subia, aos poucos, ramificando pernas. Ali também cultivava chuva.  Aquietei-me incolor. Mais rápido do que imaginei, a língua anelou-me as hastes. E enquanto ele me escavava com os lábios eu germinava o falo bem na palma da minha mão.

 

Prolonguei a respiração o quanto pude. Esse intervalo foi o suficiente para que eu levitasse invisível aos olhos de meu homem. Dali também bebia vagarosamente cada um de seus gestos. Atada a volúpia, logo me certifiquei que nenhum de meus cálculos era exato. Constatei também que aprendemos – eu e ele – muito com os animais não hierárquicos. Não havia macho e não havia fêmea. Só nós, nus em lã, feito forças armadas convulsivas e desordenadas. Depois voltei ao rijo esconderijo de nossos corpos.

 

Movíamo-nos em ziguezagues repetidos e tudo era contrário ao direito, ainda bem. Nossa ideia de justiça era sua própria abstração. Também éramos imortais naquele instante. Derivados do extinto, comprimíamos, um a um, os mais remotos poros e, assim, passeávamos famélicos e tesos.

 

Todas as mensagens estavam postas. Acessamo-nos. Medievais. Inexatos.

 

Do fole veio o sopro. A cavidade ventilada precipitou-me ao abismo dele. Latejaram os rios. Gradualmente, pernoitei, enquanto ele palmilhava meus pés com hálito de chuva.

 

  • Acho extraordin[arios os textos do Ruben. São trabalhados com palavras e frases que se embaralham e se ajustam contendo uma carga sentimental profunda, típicas de poetas que escondem dentro de si personagens às vezes inacessíveis, mas que brotam repentinamente e se mostram ao mundo como devem ser: maravilhosos.

  • Fico extremamente feliz de saber que em meio ao nosso movimento turbinado de informações, fatos e atos dos mais grotescos, ainda há, quem se harmonize tão perfeitamente com as palavras, conseguindo com isso, fazer algo tão especial: poesia.
    Fique bem!!!
    Um abrc

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *