Escravidão contemporânea. Cineasta Renato Barbieri fala sobre “Pureza” e “Servidão”, seus premiados filmes

 

Dira Paes, interpreta Pureza

Premiado na última quinta-feira (01) como “melhor filme” pelo júri popular no Florianópolis Audiovisual Mercosul – FAM 2020, o drama “Pureza” (2019) do diretor brasiliense Renato Barbieri explicita a urgência da escravidão contemporânea como temática nas telas dos cinemas.  “Livremente inspirado em fatos reais”, o longa metragem, protagonizado pela grande atriz Dira Paes, é baseado na história de luta de Pureza Loyola, que saiu em busca do filho Abel, desaparecido após ter sido vítima de trabalho escravo no campo, na Amazônia. 

O cineasta Renato Barbieri concedeu entrevista às jornalistas Alcilene Cavalcante e Luiza Nobre, deste blog/site “Repiquete no Meio do Mundo”, onde fala sobre os premiados “Pureza” e “Servidão” e ainda sobre um documentário sobre a música paraense.

  1. Renato Barbieri

Renato diz que ate onde sabe, o filme “Pureza” foi o primeiro filme internacional sobre trabalho escravo contemporâneo rural. “Foi um trabalho de 12 anos. A gente montou um grande arco institucional que eu nominei de rede abolicionista, com mais de 20 instituições do Brasil e do mundo que combatem o trabalho escravo e apoiam o filme, inclusive com apoio financeiro. O TRT 8( Tribunal Regional do Trabalho da 8ª região) foi absolutamente estratégico para essa produção abolicionista”. 

 

 “O Pureza tem uma presença muito forte do Pará. Não só as locações, em Marabá, mas o acolhimento da comunidade marabaense foi maravilhoso, não tivemos nenhum incidente! Tivemos muito apoio da prefeitura, apoio do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª região e também uma participação muito expressiva do elenco paraense. Vários talentos que eu não conhecia, além da Dira Paes”, recorda.

No processo de pesquisa e filmagem para a construção do roteiro de ambos os filmes,Renato Barbieri acompanhou ações do Grupo Móvel de Fiscalização e Combate ao Trabalho Escravo no sul do Pará e norte do Mato Grosso. O resultado da parceria não somente permitiu ao diretor dimensionar a aplicação das políticas públicas abolicionistas, mas se aproximar das comunidades locais.

 

Também premiado,  o doc “Servidão” foi eleito o “Melhor Longa Metragem Documental” no Festival de Cinema de Port of Spain, em Trinidad Tobago, em setembro.

“A nossa história colonial está recheada de fake news. Tem muita fake news nos nossos livros de história, que muitas vezes se não tem um erro na distorção, tem na omissão. Existe uma ação de resistência de contar a verdadeira história do Brasil, popular e coletiva. E o cinema tem papel fundamental de contar a história do nosso povo e dessa história real”. Entendendo o cinema como estratégia, o diretor alinha as produções às causas sem visibilidade, para contar a trajetória de pessoas anônimas e lideranças esquecidas pela narrativa tida como oficial.

O tema Trabalho escravo contemporâneo e trabalho escravo no Brasil infelizmente é atemporal e ele se confunde com a história do país. E isso também faz parte da nossa história, precisamos olhar para isso, porque é um fato, é real. Precisamos olhar para a nossa história com coragem, sem ocultá-la”, pontua Renato.  

“Eu acho que a missão de jogar luz sobre o trabalho escravo contemporâneo e sobre uma tradição escravagista secular que remonta a colônia até os dias de hoje tem uma grande sinergia entre o “Pureza” e o “Servidão”, porque um complementa o outro. O “Servidão” mostra e fundamenta o porquê do cenário do “Pureza” ocorreu”, explica o diretor sobre a relação direta entre as duas produções. 

Lançamento

Os dois filmes seriam lançados no primeiro semestre de 2020, mas a pandemia adiou. Porque contratualmente eles precisam ir primeiro para as salas de cinema. Enquanto isso a produtora está trabalhando os filmes em festivais de cinema.

Assim que acomodar a pandemia, os filmes estreiam nas salas de cinema e depois vão para as plataformas de filmes pela internet.

Documentário sobre a Música do Pará

Em paralelo ao “Pureza e o Servidão”, a produtora Gaya Filmes, produziu um telefilme sobre a cena musical do Pará, chamado “Ventos que Sopram – Pará”. “Eu sou apaixonado pelo Pará, pela cultura paraense, pela paisagem e natureza paraense. Pela história paraense, que é uma história que foi muito negligenciada por parte dos poderes centrais no Brasil. A gente sabe que o Pará e o norte do Brasil têm uma história riquíssima de resistência, uma alegria guerreira. E a música do Pará expressa muito essa força de resistência. Os grandes músicos do Pará, que é um celeiro de música e se encarrega de contar a história do estado. Dona Onete, Gaby Amarantos e outros que contam a história do povo”, destaca Renato. “Adorei fazer esse projeto e fiz grandes amigos, como os músicos Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro’.

Selecionado para participar da 12 edição do In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical, o documentário passeia pelo estado do Pará em busca da trajetória musical de uma terra que transborda cultura popular. Do tradicional carimbó à modernidade das aparelhagens, o filme amplifica a musicalidade paraense para além das fronteiras, alcançando outras esferas.

Resultado dos mergulhos de Renato Barbieri entre rios que apontam os caminhos para as verdadeiras histórias sobre a amazônia, transformando o cinema na pureza da resposta às perguntas até então retóricas para o Brasil.  

(Alcilene Cavalcante e Luiza Nobre)

 

 

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