Escola Jari

Por Marco Antonio Chagas, professor da UNIFAP/Ciências Ambientais, doutor em desenvolvimento socioambiental pelo NAEA/UFPA.

As vezes tenho a impressão que compartilhar conhecimento no Amapá é perda de tempo. Escrevo há alguns anos para o site do Correa Neto e quando o assunto é técnico a matéria passa despercebida, demonstrando aversão dos leitores ao conhecimento ou mesmo de que meu assunto preferido – meio ambiente e sustentabilidade – não tem afinidade com o Amapá. Acho que a segunda hipótese é a correta!

Depois das lamentações, uma boa notícia! A Jari está saneada! O dono da Jari, Sérgio Amoroso, acabou de anunciar ao mundo dos negócios que a empresa Jari não tem mais dívidas e está “azeitada” para gerar lucro e contribuir para o desenvolvimento sustentável do Vale do Jari (ver matéria em Valor Online, 09/05/11).

A Jari de hoje deixou de ser um negócio para se tornar uma escola de sustentabilidade para a Amazônia. Aprendeu com os erros! O sonho de Ludwig de ver a floresta crescer como um grande milharal parece não ter sido tão louco assim! A floresta pode ser manejada. Não existe em nenhum lugar na Amazônia outro projeto de manejo florestal que tenha adquirido tanto “know how” como a Jari.

Os 500 mil hectares de floresta manejada e certificada pela Jari ainda não dá lucro. Além das dívidas, agora quitadas, ainda existe resistência do mercado consumidor em pagar o preço justo pela madeira certificada. O maior comprador da madeira da Jari é a Holanda, seguido pelo Brasil. Este último encontra-se pelo menos 20 anos atrás dos países do Norte em termos de práticas de gestão ambiental e sustentabilidade. No Amapá, após ares de inteligência ambiental no governo do PDSA, voltamos a época dos embates de Estocolmo 72.

Tenho acompanhado notícias de que o Governo do Amapá pretende estabelecer o marco lógico para o manejo sustentável da Floresta Estadual do Amapá. Essa iniciativa é saudável, mas recomendaria aos gestores do governo primeiro passar algum tempo na sala de aula da escola Jari. Isso não é nenhum demérito aos titulados doutores do conhecimento teórico. Simplesmente é olhar para uma realidade que se aproxima muito dos desafios do desenvolvimento sustentável na Amazônia quando se tem uma empresa que opera há mais de 40 anos numa região frágil e cheia de cercas por todos os lados, mas que abriga 50 mil cidadãos brasileiros.

  • Professor Marco Antônio,
    Seus textos são sempre educativos e esclarecedores. Parabéns!
    A idéia de Lucius Annaeus Seneca na Epistulae morales ad Lucilium: “Non scholae, sed vitae discimus”, na tradução livre de “Aprendemos não para a escola, mas para a vida” preconiza que o mais profundo conhecimento teórico não poderá dispensar jamais a experiência de quem sabe fazer. É salutar sair dos gabinetes e das academias e ir ver como é mesmo que se faz. O senhor está certo.

  • Prezado Marcos Chagas,

    Já havia pensado sobre o que vc comenta no início de seu artigo. Não posso emitir uma opinião certeira, até por falta de meios estatísticos para chegar à mesma.
    Mas é altamente evidente e clara a falta de vontade, de interesse (não acredito que seja desconhecimento) em participar de debates de temas de grande importância. Semana passada pensava exatamente nisso, quando da postagem de um artigo sobre o Código Florestal pelo Alcione nos blogs de suas irmãs. Artigo esse, diga-se de passagem com bom conteúdo e recheado de informações relevantes. Nas caixas de comentários, salvo engano, em um dos blogs quatro comentários, em outro nove ou dez. O Código Florestal não interessa apenas a engenheiros agrônomos, engenheiros florestais, geólogos e etc. Trata de questões de suma importância para a sociedade como um todo: desde a questão ambiental em si (conservação de fontes de recursos hídricos, recursos genéticos vegetais e animais) até a questão da produção de alimentos.
    Mas se o assunto fosse sobre a declaração do Senador X sobre o Desembargador Y ou sobre o Deputado Z, Deus nos acuda, a participação é expressiva. Os arautos do disse me disse entram em ação de forma exponencial.

  • Caro Marco,
    Não se angustie. É provável que seja um pouco de cada coisa. Lembre que até bem pouco tempo atrás discutir alguma coisa sobre o Amapá, atentava contra a harmonia, vilipendiva a parceria e tumultuava a governabilidade. Espero que os novos tempos estimulem o debate e deste possam emeegir novas idéias e propostas.
    ASbs
    Alcione

  • Marcos,não o conheço mas amei o tema e sua preocupação sobre o meio ambiente e sua sustentabilidade.Dizem que a Amazônia é o coração do Brasil,pois eu penso que é o coração do planeta.A diversidade tanto vegetal quanto animal é algo extraordinário neste coração e sem este, morremos dia à dia.As salas de aula não fazem mal à ninguém,muito menos p/quem precisa aprender,né não Srs. gestores?Mãos aos livros e aprendam com os que estão dispostos a ensinar.

  • Quando leio seus artigos, me orgulho de ter o mesmo nome, pena que não o mesmo cabedal de conhecimentos. Parabéns.

  • Prof. Marcos, a sua matéria sobre desenvolvimento sustentável no Amapá, com o exemplo da Jari, demonstra que existem trabalhos sérios e pessoas responsáveis no Amapá, nao e a toa que esse Estado conserva sua floresta em mais de 90%. quanto a resistência a troca de conhecimentos entre setores do governo do Estado, deve-se a falta de estímulos a uma política diferenciada a partir do debate. Nao esqueça que a forma de governar que sempre imperou neste Estado foi pelas decisões virem de cima pra baixo, através de negociatas políticas sem qualquer discussão sobre as reais necessidades da sociedade.

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