Em cartaz: a Copa das Copas

*** Charles Chelala

Esta Copa do Mundo que hoje chega ao fim é uma edição histórica, especialmente pelo fato de seus episódios terem sido tão espetaculares que parecem ter sido escritos como uma obra de ficção.

O primeiro capítulo começa mais de um ano antes da bola rolar, com as históricas manifestações de junho de 2013, nas quais as massas foram às ruas “não apenas pelos 20 centavos”, mas por uma extensa e difusa pauta de reivindicações que, no fundo, exigiam “padrão FIFA” nos serviços públicos no país. Gerou-se uma expectativa negativa de se repetirem durante a Copa e forjou-se um risível movimento “não vai ter Copa”, mas o enredo mostrou-se alegre e pacífico, com poucas e pequenas manifestações.

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O nosso roteirista criativo também não se esqueceu de criar um clima de que o Brasil não seria capaz de sediar um evento desta magnitude. Pairou no país um temor de que o trânsito, os aeroportos, os hotéis, os estádios e a precária infraestrutura urbana brasileira iria transformar a Copa num caos vergonhoso para o resto do mundo, tudo isso resumido na expressão “imagina na Copa”. Surpresa, tudo funcionou relativamente bem.

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Começa a Copa do Mundo e a trama vai esquentando. A primeira fase é farta de emoções: revela uma média de gols elevadíssima; três campeões mundiais (inclusive a atual, Espanha) voltam para casa; Costa Rica é a primeira colocada no grupo da morte e Cristiano Ronaldo, o melhor jogador do mundo, não consegue levar Portugal às oitavas. Aliás, a seleção da terrinha só enfrentou Gana depois que o governo mandou um avião cheio de dólares para pagar o bicho dos jogadores. As cenas dos ganenses cheirando os pacotes de verdinhas são incríveis. Cai o pano da primeira fase com a mordida do Suarez.

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Nas oitavas de final, basta dizer que cinco confrontos foram à prorrogação, inclusive os da Alemanha e Argentina, que venceram seus respectivos jogos com extrema dificuldade e toques de dramaticidade. E o pênalti duvidoso no Robben da Holanda no último minuto, desclassificando o México? A classificação do Brasil nos pênaltis e o choro disseminado da seleção virando pauta, já demonstravam que algo andava mal nos nervos dos jogadores. Por fim, avançaram para as quartas os oito times que ficaram em primeiro nas chaves e o melhor desempenho de todos foi da… Colômbia.

As quartas de final prosseguiram com jogos dificílimos e igualmente dramáticos, mas o roteirista deixou claro que existe uma força inexorável que empurra os times mais tradicionais para as finais. Uma cena poética: após o gol de pênalti da Colômbia, um singelo Louva-Deus, que em algumas partes do país é conhecido como “esperança”, pousa no ombro de James Rodrigues que volta com a bola para o meio campo cheio de “esperança” de empatar o jogo. Aqui também ocorre o drama de Neymar, que comoveu o Brasil e foi explorado ad nauseam pelos meios de comunicação.

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Fora dos campos, outra sacada genial do enredo: a polícia tupiniquim, sem ajuda de Interpol, FBI ou CIA, desbarata um esquema internacional de venda ilegal de ingressos, cujo QG da quadrilha era o Copacabana Palace! Não remete aos filmes de James Bond?

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Diante do desenrolar da trama, era de se esperar o final feliz, tipo: Brasil vencendo da Argentina com um gol de mão aos 120 minutos de jogo. Só que o roteirista mostrou-se mais criativo e cruel. Inventou aquela goleada inacreditável de 7 a1 e elevou nosso complexo de vira-latas à enésima potência. A vergonha que se esperava do lado de fora, acabou ocorrendo no gramado.

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Escrevo esta crônica antes do capítulo final. Ainda virão outras cenas que só contribuirão para o fato de ter sido esta uma Copa inesquecível e espetacular, como uma obra escrita pelo mais criativo dos autores.

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