DESRESPEITO COM O ELEITOR

Por

Paulo Sérgio Alves Bezerra

Mestre em Administração – UFRN

Especialista em Políticas Públicas – FGV

A revista Época desta semana (6 de setembro), na seção Carta da Semana, publicou o trecho da carta de uma leitora, cujo teor achei muito interessante. O trecho dizia: “Não é possível assistir ao programa eleitoral gratuito e não ficar revoltada. A apelação dos candidatos é um desrespeito para com os eleitores. Sinto vergonha por eles”. Pensei que a leitora fosse do Estado do Amapá, mas não, ela era de São Paulo. Todavia, mesmo tão distante, ela conseguiu expressar com muita clareza o sentimento que também me constrange.

Acredito que esse sentimento de vergonha pelas promessas dos políticos não é exclusividade minha, mas está presente em muitos eleitores amapaenses. Um cidadão comum, com um nível médio de escolaridade e discernimento, o chamado homem médio, percebe que muitas promessas feitas pelos políticos no horário eleitoral são mentirosas, nunca serão cumpridas, são apenas fantasias para enganar o eleitor desavisado.

Dos candidatos a governador, por exemplo, muitas promessas são grandes mentiras deslavadas. Tem candidato que promete doar casa ou doar um cheque para você comprar a casa que quiser. Tem candidato que promete construir hospitais, maternidades, escolas, estradas e pontes. Tem candidato que promete que não haverá mais crime no Estado do Amapá. Tem candidato que promete equiparar os salários dos servidores estaduais aos salários de servidores federais. As promessas são muitas.

São muitas as coisas que me constrangem. Uma delas é o fato de que alguns dos candidatos estão no poder há algum tempo, pelo menos oito anos, e nada fizeram pelo Estado. Nem mesmo denunciaram a situação indigna em que vive a maioria da população desse Estado. Mas agora, porque são candidatos, prometem que vão fazer milagres, coisas que não fizeram nesse tempo todo em que estão no poder. Agora, o cidadão vê candidato andando na lama, na rua poeirenta, nas pontes, beijando criança melecada e cheirando vozinha remelenta. Fazendo coisas, enfim, que nunca fizeram parte do seu cotidiano nesse tempo de poder. E que, depois da eleição, serão esquecidas.

Mas o que me constrange mesmo, é a mensagem que está por trás da promessa mentirosa. Para o candidato que faz promessas mentirosas, o eleitor é um tolo, um babaca que merece ser enganado. Se fosse possível se eleger sem ter que beijar criança e vozinha, sem ter que pegar na mão de trabalhador, sem ter que andar na lama, com certeza esse seria o mundo ideal para o candidato mentiroso. Mas, como isso não é possível, o candidato mentiroso forçadamente tem que se submeter ao martírio que é conviver momentaneamente com o eleitor. É claro que é um martírio. Se fosse prazeroso, o político visitaria permanentemente o eleitor. Por isso é que ele só aparece em época de eleição.

Os recursos públicos não pertencem ao governante. Eles pertencem ao cidadão que compulsoriamente entrega dinheiro ao poder público, por intermédio dos tributos. O governante apenas administra os recursos que são de todos os cidadãos. Tenho certeza que o cidadão não entrega o seu salário para uma pessoa mentirosa administrar, pois sabe que se assim o fizer, vai ficar sem o dinheiro e sem os benefícios. Os economistas dizem que entre 1/3 e 1/4 dos rendimentos do cidadão vai para o poder público por meio de tributos. Isso significa que de três a quatro meses por ano, o cidadão trabalha para o poder público. Faça valer o seu sacrifício. Não eleja um candidato mentiroso para tomar conta do seu dinheiro.

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