Crônica de uma morte anunciada

Por Paulo Ronaldo Almeida – Jornalista

Vou jogá-lo do terceiro andar. Não! Ele pode morrer e quem vai acabar sendo preso sou eu. Melhor, vou arrebentar ele na porrada e no máximo ser processado por lesão corporal, ser enquadrado na lei das penas alternativas e pronto, me vinguei.

Esses foram os sentimentos que vieram à tona no último dia 30 de agosto, quando numa audiência, no Fórum Desembargador Leal de Mira, deparei-me com o bandido, que no dia 7 de setembro de 2009, às 19h45, junto mais outro comparsa, invadiu minha casa, apontando uma arma para minha cabeça e uma faca no pescoço do meu filho, ameaçando matar todos, caso nós não lhes déssemos o dinheiro que queriam.

Sabe aquele ditado que quem apanha jamais esquece. Então, naquele dia eu me lembrei de cada detalhe daquela noite, do medo que minha família sentiu e da impotência de um pai de família que não pode defender os seus. O bandido se esqueceu de mim e veio, sozinho, pedir informação.

Um jovem de 18 anos, corpo franzino, cara de humilde, nem parecia aquele lobo feroz que adentrou minha casa, o lugar mais sagrado de um homem, levando não somente dinheiro, mas destruindo sonhos, porque a partir daquela noite, ao invés deles fugirem, eu é que fui obrigado a vender minha casa e mudar de bairro, porque minha família ficou traumatizada e, até hoje, tem medo.

– Onde fica a quarta vara – perguntou.

Eu estava num canto afastado, fumando um cigarro. O policial mais perto de mim estava a 20 metros. Pensei em tanta coisa. No entanto, como um homem de bem e que confia na Justiça, embora seja às vezes injusta e tarde demais, informei o que ele desejava. E o rapaz virou de costas e foi aguardar a vez de ser chamado.

O título “Crônica de uma morte anunciada” é de uma obra do escritor Gabriel Garcia Marques. Mas, não encontrei nada que melhor definisse o que um dia pode acontecer. Como a Justiça pode colocar, lado a lado, com segurança quase zero, vítima e bandido?

Será que meu comportamento seria o mesmo, se esse criminoso e seu comparsa tivessem matado ou violentado alguém da minha família, ou se simplesmente eu fosse um homem violento que, possuído pelo ódio, fizesse justiça, ali mesmo, com minhas próprias mãos?

A pergunta é pertinente, porque quando se rouba alguém não se leva apenas dinheiro. No caso foi muito mais. Dentro do notebook levado por eles estava 90% do TCC da minha esposa, que até hoje não se formou e todos sabem o quanto e difícil recomeçar.

Eles não levaram apenas o dinheiro para pagar as contas do mês, desestabilizaram minha vida financeira, vendi a casa para honrar compromissos e fui morar alugado. Fui obrigado a dar meus cachorros porque não tinha para onde levá-los. Meu filho ainda acorda chorando no meio da noite. E tantas coisas que tive que deixar para trás. E nestas horas o ódio invade o corpo.

Por isso eu digo senhores magistrados, colocar vítima e bandido no mesmo corredor de espera não é uma boa ideia. Porque um dia, alguém pode fazer aquilo que tive vontade e ai será tarde demais.

  • Ótima crônica. Realista e atual. Mesmo que tivesse sido escrita muito tempo atrás, ainda seria atual, como o é
    a obra de Erasmo de Roterdam. Esperemos que a justiça se faça, em sua plenitude.

  • Leio esse texto logo após acordar de uma noite em que ladrões entraram no pátio da casa de seus pais pra furtarem bens. Parabéns pelo sangue frio. Confesso não saber qual seria minha reação.

  • Infelismente essa é nossa realidade, passei por situação parecida, fui roubada e como se não bastasse ter ficado um dia todo no CIOSP frente a frente com o bandido e a familia dele fazendo ameaças, fui chamada no Forum pra prestar esclarecimentos e tive que ficar novamente de cara com o bandido e o oficial de justiça ainda me pediu pra confirmar meu telefone celular na frente do bandido, pode uma coisa dessa?
    Temos que nos expor, correr riscos…e é por isso que muitas pessoas que são assaltadas e roubadas deixam de denunciar pq além do medo, a propria policia expõem a vitima.

  • EXEMPLAR, somos humanos e se tivesse feito algo sairia da historia sem ser crucificado, porem fez o certo. parabens pela atitude e parabens pelo texto muito bem escrito.

  • Infelizmente é essa realidade de uma sociedade hipocrita e injusta. bela cronica q relata o dia a dia de centenas de pessoas q na certa ja passaram pela mesma situação. inadmissivel é termos q olhar para a cara desse bandidos e aterrorizam nossas vidas. sensata porem foi a atitute de autor do texto. nada acrescenta acabar com a vida de uma raça destas q na certa vai passar pela vida sem nada contribuir. parabens ao meu amigo Paulo Ronaldo pela brilhante publicação e demonstração clara de serenidade e inteligência. muito bom…

  • Atitude mais que coerente, é salutar a razão sobrepujar a emoção. Embora às dificuldades, a busca para a realização dos sonhos e dos ideais não podem ser abandonados. O melhor caminho é esquecer as leis que a cada dia são criadas para proteger os facínoras, engravatados ou não, leis que premiam com salários aos bandidos que se encarregaram muitas vezes de interromper sonhos e na cadeia não se preocupam, pois, suas familias estão protegidas pelo estado enquanto o outro lado, o estado ignora.
    Importante no ser humano não é contabilizar o que perdeu e sim acreditar na Suprema Virtude da continuidade da existência e de poder agradecer a Deus a cada dia. O resto, vocês são capazes de realizar.

  • Parabéns ao autor do texto pela atitude serena e inteligente que tomou diante do “verme”,vermes que a única capacidade é a de destruir vidas.Acreditar e confiar na justiça Divina é oque nos resta,a dos homens é falha,ou melhor,falida.Nossas leis são tão ultrapassadas,quanto nossos legisladores que teimam em viver de passado.Os países de 1o. mundo podem até pecar(raras vezes) em suas condenações,mas nestes, as leis são rigorosas e atualizadas,não são pré-históricas como as do Brasil,e lá não tem esse papo de o bandido ser menor de idade,vai pro pau mesmo.Aqui além das leis ultrapassadas, ainda nos deparamos com milhares de ONGS protegendo esses vermes.

  • O Código Penal Brasileiro tem 70 anos e será revisto agora. É hora de organismos como OAB e a sociedade em geral se movimentarem para acabar com as prerrogativas que deixam brechas
    para o fortalecimento dos vários crimes praticados, muitos que quando punidos soam como premio e acabam incentivando mais pela impunidade. Acredito que o Brasil ainda tem jeito, basta que tratemos as coisas com seriedade, principalmente no período mais propicio que é a época de eleições.

  • Sou PM, e testemunho esse fato todas as vezes que vou presta depoimento como testemunha/condutor. Já testemunhei vítimas de assalto não terem coragem de reconhecer os acusados, pois o medo, agravado pelo olhar ameaçador dos familiares dos acusados, as intimidaram. No fim ficou eu, pro acusado e familiares, como o único responsável por aquele momento.
    Não vou lhe parabenizar pelo sangue frio, pois você fez o que uma pessoa do bem deveria fazer, vou lhe pedi desculpas por não estar presente quando você e sua família precisaram. Que Deus cure seus traumas e de sua família.

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