Crônica de Domingo

Fim de férias, hora de pegar o navio e voltar pra Belém

Mariléia Maciel

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E os últimos dias de julho eram de despedida. A turma de estudantes amapaenses que estudava em Belém, começava a atravessar o Amazonas e voltar pra realidade de universitário em terras vizinhas. Era o fim de um mês feliz que começava nos primeiros dias de julho. Quem entrava logo de férias chegava no início do mês, geralmente nos navios Comandante Idalino e Solon, que atracavam no trapiche Eliezer Levy, nas primeiras horas da manhã. Na Mãe Luzia, julho era aguardado com ansiedade infantil, com ele chegavam meus irmãos e um bando de vizinhos que estudavam no Pará, na falta de uma universidade por aqui. Nos meses antes, a gente só se falava por telefone aos domingos à noite, quando a tarifa era mais barata, ou por cartas. Quem não tinha telefone em casa o jeito era ir pros orelhões azuis da Teleamapá, com seu monte ficha DDD na mão.

Eu e meus vizinhos íamos esperar os navios de madrugada. Saíamos a pé, ainda escuro, pra não perder nenhum instante com eles, que vinham em redes, porque a farra era melhor, e pra alguns, faltava dinheiro pra comprar camarote. A vontade de chegar era tão grande que quando o marinheiro amarrava a corda, os universitários pulavam aos montes pelas janelas do navio de ferro. Saudade? Sim, mas também pra fugir de uma possível intercepção dos homens de branco, já que a maioria entrava no barco sem pagar passagem, usando métodos que eram testados e, se desse certo, era contando de um pra outro, até que fosse descoberto. Eram técnicas de como entrar e se esconder no porão ou nos banheiros, até que o navio apitasse anunciando a partida. Pra não dar bandeira, uns vinham com a roupa do corpo e dormiam em cima de salva-vidas.

Nada de carro, o bom era voltar pro Laguinho andando, de valises nas mãos, com os estudantes amanhecidos, continuando a farra pelas ruas ao som de atabaques e pandeiros barulhentos. A chegada deles era o início das férias. Nossa casa ficava sempre cheia de amigos e parentes, pra matar a saudade e saber das novidades. As comidas eram caprichadas e variadas. Era quando aproveitavam pra esquecer a dieta de estudante pobre, que chamavam de S.O.S. (salsicha, ovo e sardinha), mantida com a bolsa do governo e com a mesada magra enviada com sacrifício pelas famílias. Era um vai-e-vem interminável em casa, sem hora pra começar, terminar, e nem acordar, porque as madrugadas eram atravessadas com muita cantoria de serestas e rodas de samba. O repertório era quase sempre o mesmo, de Almir Guineto a Paulinho da Viola, passava pelos sambas de Chico Buarque e as novidades trazidas do Pará em fita cassete, que decorávamos pra poder acompanhar.

Também era em julho que aconteciam os festivais de música, na Globo e os promovidos pela Associação do Universitários do Amapá (AUAP), que movimentava o mês e lotava os ginásios em cada eliminatória. Nos dias de festival na TV, as reuniões se transferiam pras salas e a torcida se dividia. No ano em que a Tetê Espíndola ganhou com “….você pra mim foi um sooool…”, não tinha quem não soubesse a letra. Foi no mesmo, 1985, que Emílio Santiago levou o troféu de melhor intérprete como Elis, Elis. Tempo em que o sucesso era pra quem tinha talento, não para quem tinha vocação pra brother dos BBB’s da vida.

Não tinha muita opção de diversão, mas sempre inventávamos. Era praia de Fazendinha, Araxá, Zagury, e principalmente reuniões animadas nas casas disponíveis. Amigos daqui e os que estudavam em Belém eram atraídos pelas novidades que inventávamos pra divertir as férias deles e as nossas. Tinham que ser 30 dias pra ficar na história, antes que pegassem o navio de volta pras duas noites de viagem, na fila com o ticket pra comer o PF e pra ir ao banheiro. Subiam no navio mais gordos, rosados e com os carregamentos de comida caseira, que duravam até a primeira semana, quando o cardápio voltava pro S.O.S., ou até que a bolsa saísse ou a mesada chegasse. Era quando minha rua e casa voltavam pra rotina. Já aguardando dezembro, quando os navios voltavam com os universitários animados, dormindo no porão e pulando as janelas, só pra curtir Macapá.

  • Vc falou tudo. Só faltou dizer que todos os estudantes chegavam a hora que quisessem em casa. A marginalização não era tão grande, como hoje
    . A droga mais potente, na época, era só o “baseadozinho”(sem apologia, por favor!) e, a DST mais popular era a “gonorréiazinha”, nada que um simples “tetrex” não curasse.Eu, que morava em Serra do Navio, no trem a batucada era grande e, quando o mesmo chegava na estação era uma festa e tanto. Éramos felizes e não sabíamos!Saudades, saudades! Parabéns pela crônica.

    BESSA

  • Fiz parte dessa história. Morava na casa de estudante do Pará(CEUP)com o Job, Jucicleber, Dep. Gatinho(falecido), Rui Gato, edson, Mauro Dantas, Helio Dantas, Elias Araujo, Sgto Arlindo Castro, Jair, Claudio Branco, Abdias, helio dantas e outros que não lembro.

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