Cidadã Luci: “Camarão da região ou do Maranhão?”

Crônica de Domingo. * Mariléia Maciel

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Tia Luci foi o que podemos chamar de “A Cidadã”, aquela que habita a cidade, exerce seus direitos, vive e ama seu povo. Ela foi assim. Nasceu quando a cidade se organizava ao redor da Igreja de São José e as rodas de marabaixo eram a única diversão pros negros de Macapá. Cresceu rodando a saia e com o sorriso carinhoso que ficaria até o final em seu rosto. Nunca tirou da cabeça os sons de caixas e ladrões de marabaixo, a mesma cabeça em que amarrou o lenço, e se profissionalizou no que seria seu ganha-pão. Junto com dona Nenê e Tia Bebé, formou o trio das tacacazeiras mais prestigiadas da cidade.

Casou com outro pioneiro, seu Zequinha Eletricista, mas não sentiu as dores do parto. Exerceu a maternidade criando as três sobrinhas deixadas pela irmã falecida, como se tivessem saído de dentro dela. Amava seu pedaço de chão, e mesmo quando o centro pedia mais espaços pras lojas, Tia Luci não se rendeu, nem vendeu a casa, que continuou espremida entre prédios e empresas. O amor pela cidade não deixou que saísse de seu reduto, os arredores do Largo dos Inocentes. Também não perdia a missa na igreja do santo padroeiro, São José. Foi no centro, em frente à praça Veiga Cabral, que fixou seu lugar de trabalho e nos fazia salivar só de imaginar o gosto do seu tacacá, do mingau de banana e de tapioca.

– “Pouca goma ou na medida, freguês?”

– “Camarão da região ou do maranhão?”

Contava espetacularmente as histórias, porque foi testemunha ocular das mudanças e andar lento da cidade. A memória preservada permitia que comparasse o atual com o passado, falava da Macapá antiga e de seus moradores, com quem conviveu, falava também de como as coisas estavam mudando do dia pra noite. Nenhum governador ou prefeito cumpriu um mandato sem ter abraçado, tomado bênção ou dançado com Tia Luci. Conheceu todos, mas nunca se valeu do prestígio para ter benefícios pessoais. Viu seus ilustres filhos crescerem da janela de sua casa, ou nos passeios pela cidade, que nunca se furtou de fazer. Acompanhou seu tempo.

Nem mesmo quando a costa se curvou à escoliose, e a bengala se tornou acessório obrigatório, deixou de estar presente em sua maior paixão, que eram as rodas de marabaixo. Quando menos se esperava, ela aparecia nas festas do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade. Se vestia a rigor, saia florida, camisa branca, flor no cabelo, toalha no ombro, perfumada e sorrindo. Dançava apoiada na bengala, rodava com os jovens, e quando cansava, sentava em uma cadeira que algum cavalheiro já havia preparado para esta dama especial. Cansava, mas sempre juntava fôlego pra viver sua cidade e seu povo. Bebeu da mesma água de Tia Biló, dona Gertrudes, Dica do Congó e mestre Pavão, que, entre os afazeres da casa, família, trabalho e religião, encontraram tempo para valorizar nossa tradição, ensinar aos mais moços e priorizaram não permitir, jamais, que nossa cultura fosse perdida.

 

Tia Luci aproveitava tanta coisa boa da vida, que não tinha tempo de pensar em morte, e descobriu tarde demais os tumores que se alastravam. Viveu seus últimos dias com a certeza de que a vida tem um fim aqui neste mundo, mas sua luta para que a memória de seus antepassados não fosse desrespeitada, nos ensinou que as pessoas só morrem quando são esquecidas e eles jamais sairão de nossas mentes, porque estão enraizadas em nossa história. Tia Luci está em cada canto da cidade, onde houver Marabaixo, onde houver tradição. A perseverança dela e de outros negros pioneiros do Amapá valeu a pena, eles estarão nos livros e nas memórias, e não haverá lei, nem governo, que façam com que suas conquistas e histórias de vidas se percam no tempo. A cidadã Lucinda Araújo Tavares, a Tia Luci, foi uma dessas guerreiras, que morreu com alma jovem e a sabedoria da idade. Nos deixou como herança a lição de que é preciso lutar pelo que é nosso,valorizar as tradições, e despertar nos jovens o amor pela cidade.

Na despedida, pessoas de todas as idades, cores e raças, autoridades, populares e anônimos, marabaixo, fogos, flores e cantos. Na recepção no infinito, com certeza mais barulho feito por Sacaca, Mestre Julião, Raimundo Ladislau, Mestre Pavão, Dona Vadoca, Dica do Congó e outros.  “Eu vou embora já peguei minha bandeira, já vou embora, já cumpri minha missão…”.

  • A FAMÍLIA FIGUEIRA, presta homenagem a TIA LUCI, realmente os momentos que passamos com ela no inicio das noites, tomando seu tacacá e ouvindo maravilhosas estórias de Macapá, serão inesquecíveis na memória de quem as viveu. Fui um desses que desfrutei de tudo isso.

  • Infelizmente nossas instituições, que deveriam ser competentes, não fazem o que devem para que nossas crianças e adolescentes estudantes possam conhecer, com muito mais propriedade, nossa história e valores culturais em sua fonte natural, nas testemunhas enquanto estão vivas e podem, com serenidade nos contar quem somos enquanto povo. Tia Luci é uma dessas testemunhas que traziam consigo a essência do que é ser macapaense, fonte pura de conhecimento da historicidade de nossa capital, de importância impar na história e na cultura de nossa gente. Com sua partida fica para todos nós seu legado que está propagado na memória de seus convivas. Oxalá toda essa incomensurável riqueza seja sistematizada, registrada e difundida como fonte de formação sociocultural de nossas novas gerações. Parabéns, Mariléia Maciel. VIVA A “TIA LUCI”!!!

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