A pandemia alterando a passagem do jovem: Atenção aos distúrbios psíquicos causados pela falta de vida social, forçosos novos hábitos em casa e exageros digitais

* Renata Ferraz. Psicóloga Clínica 

O contexto global da pandemia trouxe riscos à saúde mental para toda a população, é inegável que algumas pessoas estão em exaustão com a sobrecarga de atividades, estressados com o confinamento e as restrições de isolamento, com ansiedade e sintomas psicossomáticos diante das incertezas atuais de vida, depressivos pela quebra abrupta de rotina, vivenciando um luto contínuo pelas perdas de familiares, amigos, colegas de trabalho ou pelo crescente número de óbitos motivados pela doença, entre outras situações que se agregaram ao caos econômico e social que sucederam à pandemia. 

Tais sentimentos e sensações desconfortáveis e em desequilíbrio com o “ciclo normal” de vida, não deixou de fora também os adolescentes e os jovens, grupo que tem sofrido muito com a falta do contato social e que tem sido vítima de riscos iminentes quanto ao comprometimento da saúde mental, visto que muitos deles nessa fase do desenvolvimento biopsicossocial não se contentam mais apenas com a rede protetora da família, buscando outras referências para elaboração de sua identidade. Por meio desta inserção, os jovens exercitam papéis sociais, identificam-se com comportamentos e valores, buscando um equilíbrio emocional para lutar contra a solidão típica dessa fase.

A impossibilidade de sair de casa para se divertir, ir à escola, participar de um grupo, construir laços afetivos, alteraram a passagem do mundo juvenil para o adulto, pois “atrasaram” experiências importantes para a formação emocional, sexual e social dos adolescentes, além da sensação do não pertencimento entre seus pares. 

Muitos adolescentes não conseguem lidar muito bem com a imprevisibilidade deste momento de calamidade pública, apresentando sintomas reativos à estresse, tensão, irritabilidade, insônia e alguns distúrbios psíquicos circunstanciais aliados a potencialização dos conflitos familiares motivados pela forçosa hiperconvivência familiar. Hábitos e atitudes como: o volume da música, o uso exagerado da televisão e videogame, a hora do estudo e do sono e ademais podem gerar brigas constantes e problemas emocionais significativos. 

Existe uma preocupação excessiva por parte dos pais e/ou responsáveis, acerca dos riscos envolvidos em certas práticas recorrentes na sociabilidade digital, visto que facilmente os adolescentes, encontram nas redes motivos para autoagressões: não aceitação da realidade de vida, comparação constante com os outros, o cyberbullying, jogos que estimulam automutilação e até o suicídio. Uma vez que os jovens são muitos habilidosos com tecnologias, mas em contrapartida são imaturos para discernir e mediar os conteúdos e as informações consumidas, pois quase sempre não fazem o “filtro” necessário, sendo importante o monitoramento e o diálogo sem julgamento por parte da família.

Infelizmente alguns “tabus sociais”, principalmente os relacionados ao suicídio juvenil e associados, impedem a prevenção e o tratamento adequado desses sentimentos de desajustes emocionais. Conversar com os filhos sobre os riscos das práticas digitais lesivas, o uso intensivo da internet que vivemos a partir do isolamento social, explorar e não banalizar como “jogo” ou “brincadeira” o caráter lúdico, desafiador e transgressor, analisar a construção de identidades dessa sociabilidade digital, ajudam aos adolescentes a problematizarem os riscos envolvidos na sua saúde física e mental.

De fato, o tempo gasto nas mídias sociais influencia diretamente na qualidade de vida dos jovens, pois afeta o desenvolvimento saudável e anula algumas experiências sociais essenciais nessa fase, visto que muitos adolescentes trocam as relações de verdade por mensagens de texto, dormem mal por causa do excesso de estímulos eletrônicos, deixam de realizar atividades físicas, pelo tempo excessivo de sedentarismo dedicado a estas atividades. Já que é segredo que a maioria das plataformas e aplicativos de mídia social foram intencionalmente projetados para prender a atenção dos usuários o máximo de tempo possível. O objetivo dessas ferramentas é, entre outras coisas imperceptíveis, explorar elementos como o preconceito e as vulnerabilidades psicológicas típicas da juventude.

Ainda que o uso de tecnologias represente benefícios, é preciso atenção e cuidados especiais para ajudar os jovens e adolescentes a superarem os impactos negativos da tecnologia na saúde psíquica, reconhecendo quando as suas emoções passam a comprometer a sua qualidade de vida e assim, procurarem um profissional na área da saúde mental. As terapias psicológicas e psiquiátricas podem provocar grandes melhorias e salvar muitas vidas.

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