A originalidade dos vinhos de boutique brasileiros

 

E a partir desta semana, passamos a publicar artigos e dicas sobre vinhos, do advogado e enófilo, José Bogéa,  publicados originalmente na Revista Diário (http://www.revistadiario.com.br/arquivo/2016/edicao15/).

Aproveitem.

Enólogo e advogado José Bogéa
Enólogo e advogado José Bogéa

O conceito de “vin de boutique” ou “vin de garage” surgiu no início da década de 90, na França, quando o conceituado crítico de vinhos Robert Parker provou o improvável Château Valandraud, feito por Jean Luc Thunevin, em Saint-Émilion, região de Bordeaux. Ele ficou encantado com aquele vinho que seguia um padrão diferente dos seus pares bordaleses. O vinho era produzido na garagem da residência de Thunevin, eram apenas 1,5 mil garrafas, com barricas novas e todo o cuidado dos grandes vinhos franceses.

1-bordeaux

 

Ainda que a prática não fosse novidade nos maiores países produtores da Europa, os elogios de Parker ao vinho de Jean Luc chamaram a atenção do mercado. Ao mesmo tempo em que o seu termo ganhava dimensão e notoriedade, passou a refletir uma outra realidade: o crescente surgimento de produtores que utilizam poucos recursos para uma produção pequena e artesanal, usando, em regra geral, um espaço de pequenas proporções (muitas vezes doméstico) e, o mais importante, não seguindo regras estabelecidas de padronização regional ou mercadológica.

Com a valorização desses vinhos ricos em diversidade, considerados exclusivos, que valorizam as características locais sem a tediosa uniformidade, houve uma expansão dessa filosofia de produção para outros países, inclusive o Brasil.

Aproveitei uma viagem de fim de ano para visitar algumas pequenas produções nos arredores de Bento Gonçalves e Garibaldi, no Rio Grande do Sul. Por tudo que já havia provado, fui cheio de boas expectativas, e não podia deixar de elencar como primeira parada a micro vinícola de Vilmar Bettú.

Curiosamente, ainda que Bettú seja desconhecido pela grande maioria dos enófilos brasileiros, é considerado uma lenda naquelas redondezas. Consegui um agendamento com ele e visitei a sua “garagem”. Isso mesmo, tudo que Bettú produz, literalmente, é no quintal de sua residência, nas cercanias de Garibaldi. Enquanto batíamos um divertido papo, eu ia provando os seus vinhos, alguns diferentes e nada corriqueiros (como os brancos feitos com a uva Peverella e Garganega), outros nem tanto, como um corte bordalês (Cabernet Sauvignon e Merlot) e um varietal de Nebbiolo. Todos muito bons!

2-Bogea-Champenoise Bistrot

De lá, segui para Pinto Bandeira para encontrar outra vinhateira que vem ganhando destaque no cenário nacional. Marina Santos é enóloga e proprietária da Vinha Unna, e vem fazendo um belo trabalho relacionado aos vinhos naturais. Seus vinhedos são orgânicos com a utilização de práticas sustentáveis e sua produção não ultrapassa 2 mil garrafas. Ela me falou que está em fase de organização uma cooperativa que vai envolver aproximadamente 20 produtores orgânicos, com o objetivo de fortalecer a produção e a divulgação dos vinhos do “Terroir de Chuva” (nome alusivo ao elevado índice pluviômetro da região). Provei seus vinhos no Champenoise Bistrot, restaurante que ela mantém com o marido e chef de cozinha, Israel Santos. Destaco o seu Cabernet Franc “As Bacantes”, assim como os vinhos da Casa Ágora, em que Marina é tão somente enóloga.

Com Mariana santos
Com Mariana santos

Por fim, não poderia deixar de destacar os espumantes da Cave Geisse e os vinhos da família Angheben.  Ainda que tenham uma estrutura maior que os produtores citados anteriormente, possuem uma produção em pequena escala e com ótima qualidade. O Cave Geisse Terroir Nature, por exemplo, é o único produto nacional no livro “1000 Vinhos Para Beber Antes de Morrer”, com muita estrutura e corpo, não perde em nada para os champanhes. Já da linha da vinícola Angheben, cheguei a profetizar para o enólogo e proprietário Francisco Angheben (com quem conversei por quase uma manhã inteira) que o seu Toroldego 2015 estaria, em um curto espaço de tempo, entre os melhores nacionais.

1-bogea-Cave Geisse Nature no livro 1001 Vinhos

Oswald de Andrade, com seu Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924), desejou que o Brasil passasse a ser uma cultura de exportação (tal qual a árvore Pau-Brasil), mediante um fazer poético original e espontâneo, livre das regras até então existentes. Esse documento auxiliou a consolidar o modernismo literário no Brasil, subvertendo os parâmetros que definiam o que era bom na época.

Se fazer vinho também é uma arte, que tomemos a lição consolidada na insistência do famoso e combativo escritor modernista, de maneira a se afastar da tentativa (e erro) de querer copiar o estilo de outras regiões famosas (como as francesas ou italianas), dando lugar à autenticidade e expressividade do vinho, respeitando as características da uva, solo e clima do lugar. Não há caminho mais alvissareiro, senão fugir dessa odiosa padronização e falta de sinceridade impostas pela ditadura das pontuações dos críticos. Um salve aos poetas do vinho do Brasil!

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