A nova dinâmica da educação imposta pela pandemia: oportunidade para fortalecimento afetivo entre pais e filhos

*Renata Ferraz. Psicologa Clínica

 

Há quem diga que educar filhos nos dias de hoje é tarefa para super-heróis, já que eles não vêm com manual de instruções para que possamos compreendê-los. São muitas as alegrias, mas também são tantos os conflitos e aflições imbuídos às funções de pai e mãe que o casal, por vezes, entra em pânico. Estas novas atribuições induzem vários questionamentos fazendo-os sentirem-se inseguros e desorientados por não possuírem ainda seus papéis de educadores bem definidos. A própria estrutura familiar tem passado por mudanças profundas, uma vez que o modelo tradicional e patriarcal de família formado pela tríade pai-mãe-filho já não é o único existente, com isso, houveram novas adaptações pluralistas e cada uma delas com características próprias que não seguem mais os padrões antigos.

A organização familiar vem se transformando com o passar dos tempos, mas em qualquer momento e seja qual for a sua formação, sempre será dela o dever de desempenhar as funções educativas, transmitir valores (morais/éticos e culturais) e condições para inserção dos filhos, em todas as fases de seu desenvolvimento, à vida social. Entretanto, no decorrer das décadas e por diversos motivos, dentre os quais podemos citar: as mudanças nos papéis de gênero parentais, a inserção da mulher no mercado de trabalho, o aumento do número de separações conjugais, a família passou a dividir e/ou delegar para as instituições escolares a responsabilidade em instruir e educar seus filhos, almejando delas a irradiação de princípios, valores e padrões de comportamentos, que vão desde as regras básicas de boas maneiras no convívio social até os mais elementares hábitos de higiene, tudo isso,  justificando-se na falta de disponibilidade de tempo aos filhos devido ao acúmulo de demandas laborais.  

No entanto, a vivência do isolamento social advindo da pandemia, suprimiu parcialmente esse jogo psicológico do “empurra-empurra” entre a família e a escola sobre a quem compete a responsabilidade na educação das crianças e dos adolescentes. As vidas profissionais dos pais, foram ajustadas em home office e as rotinas escolares dos filhos modificadas com aulas online realizadas em ambiente domiciliar. Tais fatores oportunizaram uma convivência obrigatória de 24 horas entre pais e filhos o que desencadeou um confronto bem nítido sobre qual o tipo de criação e educação estes estão submetidos, assim como, a falta da imposição de limites daqueles nas relações familiares. Ao serem confrontados com esta nova dinâmica percebe-se, mais do que nunca, a importância entre os núcleos familiares de desmistificar os conceitos sociais vigentes entre o “criar” e o “educar”, assim como, a importância de que estes assumam com competência e clareza os seus papeis, haja vista que nas escolas os alunos são passageiros, mas nas famílias os filhos são para sempre.

Devido à falta de tempo dedicado às relações familiares, muitos pais sobrecarregavam as agendas dos filhos como se fossem pequenos executivos, com horários cronometrados para escola e atividades extra – curriculares, tais como: dança, futebol, aulas de línguas estrangeiras, música, excesso de lições e outras atividades sociais, muitas vezes delegando também a estes ambientes e seus profissionais as mesmas atribuições que exigem das escolas regulares. Tudo isso, com o intuito de minimizar possíveis culpas oriundas de suas ausências cotidianas nas vidas de seus filhos, o que pode ser observado também pelo hábito de proporcionar a eles aquisições frequentes de presentes/objetos de consumo, nem sempre necessários a sua educação, como forma de atender suas demandas emocionais em compensações materiais. 

Mas, em tempos de laços familiares estreitados abruptamente podem surgir alguns agravos gerando desconfortos, conflitos, disputas, ansiedades e estresses, dificultando a interação e harmonia familiar. Fatores que corroboram a tese da necessidade do comprometimento familiar dos pais no bem-estar físico e emocional de seus filhos, bem como, de todos os membros da família. A maioria dos conflitos são originados pela falta de comunicação dentro de casa que levam a maximização das divergências.

Por outro lado, a intensificação da convivência também pode ser uma experiência enriquecedora quando proporciona às famílias: revisão de valores, estabelecimento de novas dinâmicas, ajustes na organização e horários das atividades individuais e coletivas, engajamento e fortalecimento de vínculos emocionais e afetivos, divisão de tarefas e atribuição novas regras e normas que objetivem limitar com clareza os deveres e direitos de cada um no convívio familiar.

Este último aspecto, apontado anteriormente, talvez seja um dos grandes desafios que os pais vêm enfrentando atualmente na educação dos filhos e nas relações intrafamiliares. O exercício de determinar limites sem imposições mas a partir do diálogo, saber exercer a autoridade materna e paterna sem autoritarismos, estas práticas importantes para as relações familiares, se bem conduzidas e com equilíbrio tornam-se, além de hábitos de convivência, demonstrações genuínas de amor e afeto. 

As crianças e os adolescentes não amarão mais os seus pais apenas porque estes lhes são “permissivos” para agirem como bem entenderem, pelo contrário, ambos perceberão que a falta de estrutura e de segurança familiar, os faz sentirem-se menos protegidos e seguros para experienciar a vida. A cada nova etapa do desenvolvimento dos filhos, haverá um novo desafio à criatividade e à flexibilidade dos pais, visto que, lhes são exigidos mudanças nos padrões de conduta e novos modos de atendê-los em suas novas demandas, que levarão a maturidade emocional tanto dos filhos, como também dos pais e a percepção de que a aprendizagem mútua estreita os laços afetivos.

Educar é complexo! Não existem pais perfeitos e nem filhos perfeitos, por isso, ao praticar a ação de educar nos confrontamos com a convivência de muitos erros e acertos. E os caminhos dessa evolução pessoal são difíceis e tortuosos pois, muitas vezes, fazem com que nos deparemos com frustações, adversidades e desilusões. Mas, quando as superamos, surgem as alegrias refletidas na concepção de que fomos partícipes vitais na formação de cidadãos produtivos, atuantes, críticos e respeitosos consigo, suas famílias e com a sociedade em geral. Os pais precisam entender que os filhos são investimentos afetivos eternos, uma construção conjunta e partilhada todos os dias de muito amor.

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