A Fronteira da Travessia

 

* Roger Normando. Médico e contador de histórias

 

Depois do mar do Oiapoque avista-se o Caribe…

– Pra onde você pensa que vai?

– Caiena!

– Qual tua idade?

– Dezessete.

– Não, não. Pode chispar daí se não tiver o dinheiro da passagem.

– O Claude Buchert está me esperando. Ele vai acertar tudo quando aportarmos.

– Descreio. Não conheço nenhum Claude. E mais: os franceses estão restringindo a entrada de estrangeiros pelo Atlântico; mais ainda: você é de menor!

O diálogo entre Corumbá e o menino aconteceu em 1987, no porto do Oiapoque, onde começa o Brasil. O pequeno, desacanhado, só queria atravessar a fronteira na busca do sonho de todo artista e não poderia temer o tatuado marinheiro musculoso e bafento.

Quando o menino conheceu Claude, francês de Tolouse, tempos antes em Macapá, ganhou a promessa de montar, em Caiena, uma banda que mostrasse a riqueza do ritmo amazônico. Tudo porque Claude, promotor musical, ouvira certa vez o tal moleque multi-instrumentista num recanto tucuju e ficou deslumbrado com seu talento.

O marinheiro não permitiu o embarque.

Noite adentro, mar rosnando, Corumbá descobre o moleque encafuado entre outros passageiros, só com a roupa do corpo. Corumbá puxou-o pela gola da camisa para jogá-lo ao mar. O menino aponta para o piso do barco onde há uma fresta por onde mina água. Lá estava fincado o pé direito dele, pois a calafetagem havia descolado em plena travessia. Corumbá se viu em apuros e todos apelaram. Ele cedeu. A viagem toda foi o garoto jogando de volta, com uma cumbuca, a água que entrava pela falha.

Do caribe o menino só conhecia histórias do pai músico, que ligava o radinho de pilha para ouvir os ritmos caribenhos. Mas o menino queria mesmo era beber da fonte e saber se a velha promessa de Claude ainda estaria no ar… ou ficaria no mar.

A monotonia da viagem foi vencida pelo marmulhar das ondas batendo no casquinho, cujo motor parecia falhar a cada estrondo na lateral. Não havia um trisco de horizonte; a noite era só breu e o céu sustentava estrelas e o sonho do pequeno. Foi-se construindo a esperança a cada hora, mas vez por outra era carcomida pelo medo de emborcar e todos virarem tira-gosto de tubarão.

Ele dizia que sua alma de músico era um rio estagnado, pois nenhum vento enluava a vela de seus sonhos. Por isso estava ali, caolho da vida com a voz trancafiada no amanhecer vindouro. Pelas esquinas de sua cidade vivia à deriva e sob ilusão de acordes e harmonias nas cantorias regadas a incertezas. Sentia-se irmão das coisas sem adjetivos. O próprio nome desafinava entre o sonambulismo de atravessar a fronteira e a esperança de encontrar Claude.

Relembra com exatidão a chegada, após fuga a braçadas até a praia de Montjoly – sem esquecer que o débito da passagem ficou “dependurado”, salvaguardado pelo pé do moleque. Por fim, a experiência jamais lhe saiu da memória e a travessia o assombrou por mais de três anos, até o retorno definitivo pelo mesmo caminho – coisa de memória, antes que a modernidade delete.

Na mochila da volta trouxe não só o culto à língua de Baudelaire e Monet, mas a tessitura caribenha transfigurada em zankerada.

Conta ainda que na volta reencontrou o velho marinheiro e fez questão de pagar uma passagem a mais e ainda não aceitar o troco. Dívida saldada, Corumbá e o menino Fineias Nelluty se tornaram amigos.

Vinte anos após aquele diálogo foi iniciada a construção de uma ponte estaiada na fronteira entre as duas nações, mas ainda se aguarda por histórias de comunhão e progresso, mas que não devem afogar fecundos relatos de travessias pelo mar da história. Ou como diria na canção “A ponte” de Zé Miguel e Jeresier: Mais c`est bien plus qu`um pont une autre vision.

Fineias

 

  • Querido Dr. poeta da Amazônia Roger Normando!!! Nem sei como agradecer-lhe por tanta gentileza em contar de forma poética esta esta verdadeira historia que vivenciei ainda muito jovem…a forma com que voce contou, fez passar um filme em minha memoria, arrementendo me a todas estas cenas reais contidas neste conto… Nesta carreira artistica conhecemos todos os dias, pessoas de diferentes classes sociais e de variadas profissões, mas quero lhe agradecer por me proporcionar esta tão boa amizade apresentada pelo meu querido Jucicleber Castro e de nos presentear vez em quando com sua presenca inspiradora e culta. Nem precisa lhe falar, mas sou fã do Roger Normando medico, poeta, amigo, pai, esposo e de sua boa energia meu querido. Um abração e muito obrigado mano!!!

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