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A comunidade de Mazagão Velho começou a semana de luto. Aos noventa anos de idade completados no último dia 19 de janeiro, seu Washington Elias dos Santos faleceu por volta de 7h30min de segunda-feira, 26. Seu Vavá Santos, como era carinhosamente chamado.

Seu Elias era um apaixonado por Mazagão Velho. Pelo seu povo, pela sua cultura, em especial pela Festa de São Tiago. Aliás, a maior encenação religiosa e cultural da comunidade, que acontece no mês de julho, tem grande dívida com seu Vavá. Fazia questão, a cada ano, de pegar o microfone e comentar detalhes da encenação (personagens, enredo), durante os dois dias de seu ápice: 24 e 25 de julho. Só se afastou há três anos, para lutar contra um câncer de estômago, que acabou tirando-lhe a vida.

Mesmo na doença, não se deixou abater. Nunca se via o seu Vavá (sentado em sua indefectível cadeira no corredor de sua residência na vila mazaganense) exibir semblante triste. Ao contrário, estava sempre com um sorriso radiante no rosto e um bom humor contagiante. E não se fazia de rogado para contar suas belas histórias. Histórias de um mazaganense que combateu na Segunda Guerra Mundial. Sim, o nosso pracinha! Que honrou suas origens no front. Histórias de quem conhecia como poucos os adendos das festas religiosas de nossa terrinha. Histórias compartilhadas com estudantes, professores e acadêmicos ávidos para a construção de monografias.

A última entrevista que fiz com seu Vavá foi em 2008, para matéria sobre a festa daquele ano. Na verdade, com seu Washington nunca era uma entrevista, mas sim um gostoso. Tanto que o tempo parecia voar! E era assim com todos os que iam procurá-lo para um dedo de prosa. Era impossível não ficar curioso para saber o final dos “causos” que ele contava. Mas a voz que alegrava as narrações de nossa festa e nos contava boas história agora calou-se para sempre…

A despedida de seu Washington não poderia ser diferente: a imagem de São Tiago que percorre a vila durante a procissão de 25 de julho, as caixas de vominê e os foliões de Nossa Senhora da Piedade vieram da terra da fé e da cultura, para render a última e merecida homenagem de seus filhos para um de seus baluartes.

Resta agora às autoridades, à comunidade da vila e a todos os amapaenses reconhecerem a grandiosidade desse homem impoluto, que tanto contribuiu para o engrandecimento da cultura de Mazagão Velho. Descanse em paz, amigo Vavá Santos!

Gabriel Penha – Jornalista