*Marco Chagas – Professor do Mestrado em Desenvolvimento Regional da UNIFAP”

Foto: Marconi Freire

Leonice Vasconcelos é guarda municipal ambiental em Laranjal do Jari, no sul do Estado do Amapá. Sua formação deve-se ao Projeto Cidadão Ambiental, idealizado pelo ex-prefeito, Reginaldo Brito de Miranda. O Projeto Cidadão Ambiental tinha por objetivo proporcionar uma ocupação diária para cerca de 300 jovens, utilizando-se de práticas de educação ambiental e suprimento alimentar.

A dimensão do Projeto Cidadão Ambiental extrapolou as expectativas em termos de resultados. Os índices de marginalidade diminuíram acentuadamente no município, principalmente em relação à exploração sexual de crianças e adolescentes, uso abusivo de substâncias psicoativas e práticas de atos infracionais.

Esses dias Leonice me ligou para comentar sobre asenchentes que acontecem ano a ano no Laranjal do Jari. – O que fazer, Marco? O nível da água se aproximou de 2.8 metros e toda a área baixa da cidade foi alagada. Não tenho o que dizer para você, Leonice!

No final dos anos de 1990, ouvi do César, filho da Maria de Nazaré Mineiro, trabalhadora rural assassinada na região, que nada se podia fazer no Laranjal do Jari, pois as pessoas queriam desafiar a natureza, ocupando o lugar que é das águas. Fiquei com isso na memória.

Ao analisar as imagens de satélite do rio Jari percebo quanto o saber do César se faz presente na argumentação sobre “o lugar das águas, a considerar que a cidade baixa ocupa um dos meandros do velho rio Jari. Essa parte da cidade será inundada gradativamente, ano após ano, até submergir para sempre, como a cidade perdida de Atlântida dos contos de Platão. Nada de futurologia, apenas algo didático dos livros de geociências que explica a evolução de um rio velho, como o Jari.

– O que fazer? Clama a querida amiga Leonice. Não sei, mas posso aferir que o Laranjal do Jari tem sido usado como laboratório para muitos estudos e pesquisas. Entendo que existe conhecimento acumulado para dar respostas a Leonice para além da ecologia dos saberes do César Mineiro ou da alta vulnerabilidade socioambiental do conhecimento acadêmico.

Nos estudos ambientais da hidrelétrica de Santo Antonio do Jari consta um Programa de Monitoramento Climato-Meteorológico e Hidro-Sedimentológico. É possível que existam dados a serem analisados para a tomada de decisão, incluindo a responsabilidade da hidrelétrica e/ou da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) quanto ao controle da vazão do rio.

Cidades anfíbias existem em várias regiões do planeta, do Laranjal do Jari a Bangladesh. Penso que a ONU pode ajudar politicamente a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com projetos pilotos construídos globalmente e que considere questões humanitárias locais.

Em 2019 a enchente será ainda pior. Os esforços de ajuda e de solidariedade se renovarão, mas isso não basta. Minha angustia é que percebo um sentimento, que não consigo avaliar muito bem a escala, de conformismo da população e das instituições com as enchentes. E isso representa a banalização do caos e da vida.