*Heraldo Costa é juiz de direito e membro da Academia de Letras Evangélicas do Amapá

 

Quando me entendi por gente minha vozinha materna já estava com 50 anos. E ela parecia mesmo uma vovó, com momentos de carinho e cuidado, mas também com horas de ‘rabugice’.

Ficava pensando quando chegasse na idade dela, se seria rabugento também. Mas tudo parecia tão longe que isso nem me preocupava. Já vaticinavam os cientistas da época que em 2018 haveria carros voadores e gente sendo congelada para ressuscitar no futuro Tudo que continua como ficção.

Mas a minha geração chegou aos 50. Vivemos muito melhor que nossos pais e avós. A revolução na indústria cosmética, médica e farmacêutica faz com que vivamos com mais qualidade de vida. As informações do mundo inteiro são despejadas na sala de nossa casa, através de vários veículos de comunicação e com muita velocidade.

Chegar aos 50 traz a noção de que estamos perto da maturidade, afinal já ficou para trás meio século e muitos anos perdidos, até que nos déssemos conta que éramos seres viventes. Após os 50 começa o processo inverso, com o envelhecimento.

Estamos já no lucro, pois quando a minha geração nasceu, a expectativa de vida dos brasileiros era de 48 anos e hoje é de 73,4 anos, segundo o seu IBGE.

A pergunta que sempre nos fazem é sobre as visões de mundo e aprendizado em cinquenta anos. Um jovem universitário me interpelou sobre o que eu considerava importante para que ele observasse. Pedi um tempo e dei algumas dicas, afinal, já estou ficando maduro.

Disse a ele que a primeira coisa a se fazer e não deixar de fazer. Não deixe de fazer nada que depois venha a se arrepender. Certos empreendimentos temos que fazer na juventude, pois temos tempo para corrigir o curso ou desistir, caso não dê resultado. Aos cinquenta é bom já ter bons projetos para empreender, para poder surfar na onda.

Outra boa dica é ter sempre um porto seguro. Uma casa, um sítio, uma pessoa. Uma hora você vai precisar ancorar e é bom ter um lugar para chamar de seu e uma pessoa para compartilhar as boas coisas da vida. Curtir as coisas sozinho, não dá pé.

O momento de começar a poupar é aos trinta anos. Depois dos 50, é bom começar a usufruir, mas como diria um grande amigo: ‘com parcimônia’, pois você não sabe ao certo quanto tempo ainda terá pela frente

É bom chegar aos cinquenta anos com relações estabilizadas. Em paz com Deus, com a família e com o próximo. O relacionamento com Deus já deve estar na classe de ‘velhos amigos’. Com família, sabendo compreender que todos nós somos imperfeitos, mas que é essa família que nos foi legado e com ela é que podemos contar, rir, brincar e desfrutar a vida. E com o próximo, sabendo dar de ombro para tudo que não é importante. A máxima nesse campo dos relacionamentos é ‘perdoar’. Porque para manter uma inimizade é necessário dias, meses e anos relembrando a ofensa. Perdoar é um ato só.

E por falar em amizade, os cinquenta é uma idade boa para cuidar dos amigos, pois eles são de valor incalculável. Alguns amigos que a vida me deu, já os tenho na classe de irmãos. Podemos não nos ver por algum tempo, mas eles sabem que estou aqui sempre torcendo por eles e me alegrando com suas vitórias. Não é à toa que alguém já disse que amizade é ‘um casamento sem sexo’. Nesse campo é bom partilhar, abraçar pessoas e causas. Esperando de volta um sorriso, o que já é suficiente.

Quando se chega aos cinquenta é bom acumular boas recordações do que viu, ouviu, comeu, provou e sentiu. Paisagens, músicas, comidas e cheiros. Tudo bem guardadinho na memória e no coração. Viajar muito, colher essas impressões e recordações do maior número de lugares.

Por fim, disse ao meu jovem interlocutor que após passar pra outra metade de século, é bom estar feliz com o que se tem. Sofrer pelo que se não tem, não faz bem. Se engajar em projetos factíveis, a fim de não ficar dando socos no ar. Ler bons livros também ajuda no exercício do cérebro Pedalar ou caminhar bem devagar, meditando. E depois de um dia de atividades, dormir. E dormir bem, sempre com a consciência e a alma leve.