Mariléa Maciel

O sonho de voltar no tempo com certeza faz parte do sonho de todo mundo. Imagine voltar a conviver com pessoas que já se foram, brincar com amigos de infância, andar em lugares que não existem mais, consertar o que fizemos de errado, fazer o que não tivemos coragem e outros devaneios que nos fazem sentar, pensar, falar  e escrever sobre mais o passado. Macapá antiga é retratada por pessoas como Fernando Canto, Renivaldo Costa, Alcinéa, Alcilene, e seus colaboradores e muitos outros que conseguem a proeza de lembrar e nos contar com simples paixão de amapaense da beira do rio.

O que ninguém esperava é que nosso saudosismo, de quem escreve e quem lê, iria ser tão real e próximo, mas em vez de ser um alegre sonho, é um triste pesadelo. O tempo que voltou não foi os de Laguinho e Favela ainda remotos, de campo do América, de Zagury nos fins de tarde, de nossos ilustres pioneiros que morreram e das tertúlias e desfiles na FAB. Voltamos no tempo de Macapá território, terra distante de governadores biônicos, de eleições indiretas, “…Macapá vai brilhar, é o sol que acabou de chegar…”, e descaso total, quando internet não era nem sonho e as roupas eram lavadas na beira do rio. Onde o Poço do Mato servia pra todo mundo e era comum atravessar os campos e caminhos com latas de água. Tempo em que todo mundo tinha que ter lamparinha em casa e querosene era comprado em qualquer baiúca.

Voltamos também num tempo de Amapá já Estado, com governador, deputados e senadores eleitos, na década de 90, quando havia racionamento de energia o dia inteiro e tínhamos que esperar suados na sala, iluminados por um bico de luz que vinha ilegalmente da rua de trás, onde tinha energia, sem que a CEA pudesse desconfiar, onde desse único fio tinha que ser ligado um ventilador, uma televisão e a lâmpada. Todos com uma firme esperança de que quando as usinas russas chegassem nunca mais iria faltar energia, que o projeto da Caesa iria nos tirar da dureza de carregar água e tomar banho “theco”.

Hoje o Poço do Mato é monumento e personagem de histórias, o rio Amazonas ficou mais distante e lamparina é objeto de decoração de saudosistas. Mas continuamos com as mesmas dificuldades de antigamente, sem água, luz e já com internet e telefone celular. Mas esse celular tem dias que não funciona, independente da operadora, e a internet disputa corrida com uma tartaruga idosa. Água é raridade, mesmo no centro da cidade, próximo da Caesa e há poucos minutos do rio Amazonas. Quando sai da torneira é água suja e imprópria pra beber. Energia é pior que na época do racionamento, pelo menos a gente sabia quando ia faltar.

Temos mais de cinco canais de TV aberta com jornalismo local, mais ou menos a mesma quantidade de rádios e jornais também com equipes de jornalismo nas ruas e uma infinidade de sites e blogs com informações atualizadas quando a Banda Lenta deixa, mas ninguém explica o que está acontecendo. O futuro está cada vez mais distante e o passado sofrido cada vez mais perto. É como um filme antigo visto numa TV de tela plana com imagem 3D, ou um de última geração, com recursos ultra-modernos assistido numa televisão Colorado, preto e branco, sem controle e chuvisco na tela. Uma mistura de real e imaginário, passado e presente, futuro e retrocesso. É assim que vivemos em Macapá, terra da contradição, onde o progresso é atropelado por uma carroça transportando baldes de água e lamparinas à querosene.