Por Kátia Brasil

O cinegrafista Roberval Coimbra Araújo, 39, responsável pela reviravolta no processo de cassação dos mandatos do casal João e Janete Capiberibe (PSB-AP), foi esfaqueado no último dia 6 e disse ontem à Folha, em um hospital de Macapá, que já vinha sofrendo ameaças.
Capiberibe e sua mulher foram cassados por compra de votos nas eleições de 2002, quando se elegeram senador e deputada federal pelo Amapá, respectivamente.
Em dois depoimentos dados em julho deste ano, Roberval Araújo, ex-funcionário de uma TV da família do senador Gilvam Borges (PMDB-AP), disse que o político comprou três testemunhas no processo de cassação do casal Capiberibe. Com ferimentos no peito e nas costas, ele falou ontem à Folha minutos antes de passar por uma segunda cirurgia no Hospital de Emergências da capital amapaense.

Folha – Como aconteceu a tentativa de homicídio?
Roberval Coimbra Araújo – Estava na cidade [Laranjal do Jari (AP)] para fazer a cobrança de um trabalho. Fui abordado por um garoto. Ele me pediu dinheiro, eu disse que não ia dar para vagabundo. Ele me deu uma facada no peito e tomou meu celular. Tentei correr, e ele me deu outra facada nas costas.
Não posso acusar ninguém, mas ele veio para me matar. Por isso, não descarto um atentado. Estou sem segurança, temo pela minha vida e pela da minha família.

O que o sr. teme?
Fui muito perseguido, fui realmente ameaçado de morte. Pessoas passam por mim e dizem: “Ei, rapaz, o que tu tá fazendo com tua vida?”.

Como o sr. conheceu o senador Gilvam Borges?
Era funcionário dele, trabalhava como operador de áudio. Dois dias depois das eleições de 2002, fui levado a ele por outro funcionário.
No dia da eleição, o Ministério Público Federal fez uma apreensão de dinheiro, material de campanha e de uma lista com com 5.000 nomes, que supostamente eram pessoas que receberiam R$ 26 por voto do Capiberibe.
Ele [Gilvam] me deu a função de localizar três testemunhas, que estavam naquela lista, para depor contra.

O sr. fez isso em troca de quê?
Ele me ofereceu casa, carro, melhores condições para a minha família. Eu caí na maionese, aceitei a proposta. No primeiro dia, me deram um carro com gasolina. Em 48 horas eu consegui três testemunhas. Eu disse a elas que não teriam mais problemas relacionados a finanças.

E por que o sr. e as outras três testemunhas mudaram o depoimento em junho?
Eu fiquei como cinegrafista da televisão. Até o momento em que ele [Gilvam] assumiu o Senado, em 2005. A Justiça cassou o Capiberibe. Aí começou o conflito meu e das outras testemunhas. O Gilvam não cumpria o acordo. Eu precisava de uma casa, de um carro e de um emprego [melhor], e nada.
Ele bateu em cima da mesa e gritou: “Eu não sou teu refém!”. Pedi demissão, procurei amigos ligados ao Capiberibe e contei a verdade.

OUTRO LADO

Por meio de sua assessoria, o senador Gilvam Borges (PMDB-AP) negou ter comprado testemunhas para incriminar o casal Capiberibe e voltou a chamar o cinegrafista Roberval Coimbra de Araújo de “bandido”.
“Quem tem que tratar com bandido é a polícia e a Justiça. E ambas estão agindo.”
Sobre a acusação de pagamento às testemunhas, ele disse que há uma ação penal no Ministério Público contra advogados e aliados de Janete e João Capiberibe (PSB).
“O casal Capiberibe determinou a um militante do PSB que corrompesse as testemunhas [citadas por Araújo], oferecendo-lhes R$ 20 mil para cada uma delas mudar seu depoimento”, disse.
João Capiberibe disse que foi procurado por quatro testemunhas, em 2005. “Elas tentaram extorquir R$ 80 mil. Mas as testemunhas notaram que estavam sendo gravadas. Mandamos a fita para o TSE, mas isso reverteu contra mim.”
Com relação à apreensão da lista com 5.000 nomes que Araújo disse ter visto na sede do PMDB, Capiberibe disse que eram nomes de fiscais e advogados que trabalharam na eleição. “Essa lista era de fiscais e advogados, e o Ministério Público não apresentou denúncia.”
O Ministério Público foi procurado pela reportagem, mas não respondeu. (KB)