Por

Wagner Gomes
Advogado
E-mail: [email protected]

 

Defino-me como católico do IBGE, que é aquele aferido pelo famoso instituto de pesquisas, quando mede o tamanho das religiões no País.
Não costumo freqüentar missas, novenas, etc. Mas a pedido de minha mãe, passei a ler a Bíblia nas suas mais variadas versões, traduções e explicações.
E falando de tais leituras com um sociólogo amapaense, Jocivaldo França, num bar do Aturiá, ele me dizia que o seu Trabalho de Conclusão de Curso foi sobre a “História do Erotismo na Humanidade”.
Conversamos, então bastante sobre o assunto, sempre lembrando que a Igreja Católica tratava antigamente (ou atualmente?) tudo o que tinha a ver com o comportamento sexual como grande perigo mortal.
Falar de sexo era falar de tentação, pecado mortal a condenar as pessoas ao “fogo do inferno”. Peca-se, não apenas por ações, mas omissões, pensamento e desejos.
Muitos chegaram a autocastração, para se verem livres dos pecados e do seu sexo.
Meu companheiro de bar, o sociólogo, é daqueles que afirmam que o principal órgão sexual é o cérebro, não os órgãos genitais.

 

Comecei a lembrar dessa conversa quando, manuseando o Velho Testamento, deparei-me com o livro bíblico Cântico dos Cânticos, que é o mais belo dos cânticos composto por Salomão.
“É um livro que canta a sexualidade humana sem tabus em toda a sua musculatura erótica, apaixonada e solidária, nas suas tendências hétero e homo, sem pornografia”, definia Jocivaldo (Jojoca), ingerindo um copo de cerveja.
E eu digo: o poema não canta o amor entre um homem e uma mulher unidos pelo casamento, mas o amor entre um homem e uma mulher simplesmente:
“Beija-me com teus doces lábios, que as tuas carícias são mais deliciosas que o vinho; o som de teu nome é agradável perfume, por isso as mulheres gostam de ti. Leva-me contigo! Vamos depressa! Leva-me para os teus aposentos, ó meu rei, vamos alegrar-nos eu e tu e ser felizes. Celebremos o teu amor mais suave do que o vinho. Com razão toda gente gosta de ti”

 

Nas minhas pesquisas, cheguei a uma triste conclusão: o Livro Cântico dos Cânticos foi reprimido, silenciado, ignorado, excluído, ou interpretado numa dimensão mística: sem sexo. O que ele cantaria seria o amor de Cristo por sua Igreja quando, na verdade, é um poema espontaneamente humano, sexuado, erótico e liberto, em que é mais a mulher a tomar a iniciativa.
Finalmente, encerando esse despretensioso artigo, digo que hoje estou mais para a moral sexual do Cântico dos Cânticos de Salomão, com a qual Cristo mais se identificou na sua prática libertadora, do que a dos mandamentos de Moisés.
Cristãos do mundo todo, leiam o Cântico dos Cânticos! Uni-vos e amai-vos uns aos outros como Cristo vós amou!