Repiquete no Meio do Mundo

Um blog feito na esquina do Rio Amazonas com a Linha do Equador, no Amapá.

Bendito Bar do Parque, história e memória de Belém.

Alcilene Cavalcante em 21 de novembro de 2010

Por Alexandre S. Amaral – Historiador

Era para ser um comentário sobre o Bar do Parque numa litografia de Sergio Bastos, reproduzida por Alcilene Cavalcante, que perguntava: “Quem já curtiu o Bar do Parque? Conta aí.” tentei ser contido, fracassei em tarefa simples. Esse espaço cultural é patrimônio da cidade das mangueiras e de boêmios… Histórias que o tempo levou.  Vou usar da digressão de Dostoievski e da inspiração de Balzac, para narrar uma bilheteria que foi coreto de ferro, um quiosque que se tornou bar, o Bar do Parque.

Nasci em 1977, em Belém, filho de Lucila Maria, abaetetubense e professora no Leprosário de Marituba; e Carlos Balieiro, amapaense que se tornou topografo na cidade grande; a literatura e os passeios faziam parte da minha infância no Largo da Pólvora, que após o golpe da quartelada militar derrubou a Monarquia de D. Pedro II e proclamou a República, em 15 de Novembro de 1891, mudando o nome do largo para Praça da República, mas no imaginário popular ainda se guarda as reminiscências de Largo da Pólvora; além do “Pinte o 7” promovido pelos militares e os passeios com meu irmãos no inicio dos anos 1980. Época em que se passeava com as famílias no final de semana na praça, espaço de lazer onde não havia medo de assaltos.

Em 1985, mudei-me com a família; finalmente fui apresentado à terra do meu pai; em Macapá revi minha “bisa” Joana, uma mulher doce que me contava histórias de Tucujus; contadora que havia me deixado em Belém em 1983; a alegria de revê-la é indescritível, fazíamos aniversário no dia de São João. A infância no Laguinho foi repleta de alegria e de grandes amigos, lá se vão 25 anos que conheço o Juliano e o Luciano, dois grandes irmãos e amigos; hoje seus filhos brincam onde brincávamos e brevemente o meu vai se juntar a eles e correr, sorrir, chorar, cair e levantar… A vida segue seu curso, como o rio Amazonas que procura o mar.

Belém adormeceu na minha infância, a feira do Ver-o-Peso inacreditavelmente dormiu; os passeios tornaram-se memórias não rememoradas e a cidade natal era cada vez mais distante a medida que crescia; não fosse pelo câncer da minha mãe, a radioterapia e a quimioterapia, não teria voltado por lá em 1989; o retorno foi traumático, minha mãe doente e debilitada; juro que Belém não me trazia mais boas lembranças, nem mesmo orgulho, cheguei a detestar a cidade! Hoje minha mãe graças a Deus esta bem e curada!

Ficaram as cicatrizes de outrora até 1997; quando o mundo e suas voltas forçaram-me a buscar meu grande sonho de ser historiador, passei na UFPA e como diria a letra de Nilson Chaves, “Eu nunca fui embora,  mesmo quando parti, fui voltando pra tua porta, vivo chegando aqui”. Novos amigos que até hoje deixam saudade: Daryen, Marcus, Neto e Rafael. Eramos um quinteto como poucos, hoje muito mais que amigos; nas sextas à noite, após as animadas festas do Vadião da UFPA tínhamos o habito de andar de madrugada nas ruas de Belém; descíamos na rodoviária de São Braz e seguíamos pela São Jeronimo, nosso destino era o Bar do Parque; ou então, quando não havia aula, pegávamos o barco que nos levava pela baia das aguas guajarinas até o desembarque na Escadinha do Cais do Porto (ao lado da Estação das Docas)… e subíamos a Presidente Vargas até o Largo.

Retornar a cidade natal foi prazeroso durante a graduação; caminhávamos como Forrest Gump, conversando sobre tudo e com a esperança de vencer na vida. As memorias relampejavam na mente, os flashes da infância eram constantes; sentia-me com a alma de criança, rememorando o 7 de Setembro e o 15 de novembro, os passeios e aquela exuberante Praça da República que tanto brinquei com meus irmãos há três décadas; Belém estava lá, adormecida no meu inconsciente até então… Acordou no meu peito sem as cicatrizes do passado; renasceu nas caminhadas pelas ruas da cidade…

O Bar do Parque a partir dos anos 1960 era uma referencia na cultura de Belém, por lá frequentaram desconhecidos e ilustres, como o saudoso Ruy Barata, que merecia ter sua estatua em lugar que tanto frequentou, não no Parque da Residência. Ali lhe faltam o charme da Cuba Libre e o cigarro do poeta; sua casa era o Bar do Parque.

Após as caminhadas, finalmente chegávamos sedentos de sede no famoso quiosque da praça; alegres e loucos por uma boa Cerpa; para nossa supressa, sempre encontrávamos dois professores; um filosofo que em sala de aula era sério, mas no bar era enfático ao nos lembrar: “Respeitem a mesa do bar, aqui não é espaço para debates acadêmicos”. Na verdade, o professor era tão animado como nós e com o tempo construí outra bela amizade; o outro, um sociólogo remista (assim como nós, exceção do Daryen, único tunante que conheço), que deveria nos dar aula no sábado de manha; dose ilusão, bebeiamos bem nessa época e saíamos de manha do Bar na companhia do sociólogo, andando com destino a Basílica de Nazareth, onde ao lado há uma panificadora na esquina da Vila Leopoldina; tínhamos que curar a ressaca, mas não adiantava, o semblante amanhecido entregava que a noite emendou-se com o dia. De qualquer forma, não haveria aula! Bendito Bar do Parque.

No caminho da panificadora lembrávamos histórias e da vez que um de nós (louco por um “rabo de saia”) foi assaltado, por teimosia, já que o garçom Antonio nos alertou do perigo. A profissional da noite era um travesti e colocou uma gilete nas “partes” do nosso amigo (garanto que não era eu, mas também não posso entregar quem era), que subiu mais pálido que um cadáver embalsamado. Até hoje encarnamos com ele! A ficha dele é corrida, tem histórias que não acabam.

O Bar do Parque ainda tem seu encanto, aos desavisados, frequentem com amigos; há perigo no caminho; Belém hoje adormece novamente; vive na memória e na saudade; garanto aos leitores, não troco Macapá por cidade nenhuma; aqui meu filho vai ter o privilégio de nascer e quem sabe um dia, se Deus me permitir, o levo por onde dei meus primeiros passos.

Alexandre S. Amaral

2 Comentários

  1. BARATA disse:

    Alexandre, a mudança do nome da praça de LARGO DA PÓLVORA para Praça da República não foi só em homenagem à Proclamação da República mas porque havia uma incoerência no local. Era incoerente que o TEATRO DA PAZ ficasse exatamente no LARGO DA PÓLVORA. Hehehe

  2. paulo silber disse:

    Meu caro, estou coletando alguns depoimentos sobre o Bar do parque para uma reportagem. Como faço para conversar com você?
    abs.

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